Uma gestora de recursos de São Paulo pagou R$ 140 milhões por uma fazenda em Sinop, no norte de Mato Grosso, em uma operação que foge do modelo tradicional de compra de terras no agronegócio. A Möbius Capital estruturou o negócio mirando um nicho específico: propriedades retomadas por bancos e fundos de crédito depois que produtores endividados não conseguiram honrar financiamentos, segundo levantamento divulgado pelo canal AgFeed.
O movimento chama atenção porque escancara um efeito colateral da crise de crédito que atravessa o campo brasileiro nos últimos anos. Juros altos, quebras de safra e exposição a dívidas em dólar deixaram produtores sem fôlego para pagar empréstimos, e parte dessas terras acabou nas mãos de instituições financeiras e fundos que não têm interesse em tocar produção agrícola. É justamente nesse estoque de imóveis rurais represados que gestoras como a Möbius enxergam oportunidade de comprar com desconto.
Mato Grosso do Sul está no meio dessa engrenagem. O estado concentra parte relevante da cadeia de soja, milho e pecuária que sustentou o ciclo de expansão de crédito rural da última década, e o mesmo aperto financeiro que levou a fazenda de Sinop a trocar de dono também pressiona produtores sul-mato-grossenses endividados em bancos, tradings e fundos de investimento. Quando a conta não fecha, a terra vira garantia executada, e entra no radar de gestoras especializadas em comprar ativos retomados por valores abaixo do mercado.
Esse tipo de operação estruturada, com fundo comprando diretamente de instituição financeira, tende a se espalhar por regiões produtoras como o Cone Sul e o Bolsão de MS, onde a cultura de alavancagem em dólar para custeio de soja e milho também colocou propriedades em situação de inadimplência nos últimos safras.
A lógica da Möbius Capital representa uma mudança de comportamento entre investidores institucionais que, até pouco tempo, compravam terra agrícola olhando sobretudo produtividade e logística. Agora, parte desse capital migra para o chamado mercado de distressed assets rural, caçando ativos com desconto justamente por causa do histórico de dívida, e não apesar dele.
Para o produtor de MS, o recado é direto: o estoque de terras retomadas por bancos tende a crescer enquanto o crédito rural seguir caro, e isso abre espaço para negociações de compra e arrendamento em condições diferentes das praticadas em anos de bonança. A tendência é que gestoras de fora do estado, como a própria Möbius, ampliem a procura por áreas em regiões produtoras do Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso do Sul, à medida que o funil de execuções de dívida avança.