A corrida das usinas de etanol de milho por combustível para suas caldeiras encontrou em Mato Grosso do Sul um cenário diferente do resto do Centro-Oeste: uma floresta de eucalipto já formada, com 1.985.020 hectares plantados na safra 2025/2026, segundo levantamento do projeto SIGA-MS, da Aprosoja/MS. O número representa alta de 15,2% sobre a safra anterior e crescimento de quase 75% desde 2020/2021 — mas essa reserva florestal, construída ao longo de mais de 15 anos para atender à indústria de celulose de Três Lagoas, agora também é disputada por um novo comprador.
O motivo é técnico: ao contrário da cana-de-açúcar, cujo bagaço vira combustível na própria usina, o milho não deixa resíduo capaz de alimentar caldeiras. Por isso, cada planta de etanol de milho depende de biomassa externa — principalmente cavacos e resíduos de madeira de eucalipto — para gerar a energia que movimenta o processo produtivo. Quanto maior a usina, maior a quantidade de madeira necessária, e quanto mais longe a floresta, mais caro fica o transporte até a fábrica.
A referência usada pelo setor é de aproximadamente meia tonelada de cavaco para cada tonelada de milho processada, segundo o informativo da Aprosoja/MS. Isso significa que, à medida que novas usinas de etanol de milho entram em operação no Estado — um movimento que já faz Mato Grosso do Sul se consolidar como o 2º maior produtor de etanol de milho do país —, a pressão sobre a madeira reservada à celulose tende a crescer junto.
Para o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, o volume total de floresta plantada não conta a história toda. "Não basta olhar apenas para a quantidade de madeira disponível no Estado. É preciso avaliar onde essa madeira está, qual é o seu custo de produção e transporte e quanto desse estoque poderá efetivamente ser destinado à geração de energia", afirmou. A madeira de melhor qualidade segue destinada à indústria de celulose, e o que sobra para as usinas de etanol é composto majoritariamente por resíduos, pontas e material de desbaste.
A cadeia que sustenta essa disponibilidade de madeira já está integrada à geração de energia em larga escala na região de Três Lagoas, onde as fábricas de celulose entregam juntas mais de 370 megawatts a partir de biomassa florestal — sendo cerca de 150 MW da Suzano e 226 MW da Eldorado Brasil, que também vende o excedente no mercado. É essa estrutura logística e industrial já consolidada, com fornecedores, viveiros, colheita e transporte organizados, que coloca Mato Grosso do Sul em situação mais confortável do que Mato Grosso, apontado pelo levantamento da Aprosoja/MS como estado em déficit de biomassa.
Mesmo com essa vantagem, o informativo do setor classifica a situação sul-mato-grossense como segura apenas "por enquanto", condicionando o equilíbrio futuro ao ritmo de expansão das novas usinas de etanol de milho e à eficiência no aproveitamento dos resíduos florestais — um desafio que já aparece em discussões sobre a oferta limitada de eucalipto para energia no Estado.
Fontes: APROSOJA/MS; IDEST