A arroba do boi gordo fechou a semana negociada acima da média de referência no mercado brasileiro, com as escalas de abate mais curtas nas principais praças pecuárias do país. Para o analista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, o cenário de curto prazo ainda deixa margem para novos reajustes, principalmente nas compras feitas por frigoríficos de pequeno e médio porte, que têm topado preços mais altos para garantir volume de boiadas.
O quadro reforça uma tendência que já vinha sendo observada em Mato Grosso do Sul nas últimas semanas: enquanto as indústrias de maior porte contam com fôlego extra, seja por contratos de parceria com pecuaristas, seja pelo uso de confinamentos próprios, as plantas menores dependem quase exclusivamente do mercado à vista e sentem primeiro o aperto na oferta de animais prontos para abate.
Segundo Iglesias, as companhias de maior porte conseguem manter uma posição relativamente mais confortável mesmo em meio à escassez de gado pronto, porque recorrem a animais de contratos de parceria e a confinamentos próprios para cobrir as necessidades imediatas de abate. Essa engenharia logística tem sido decisiva para conter o repasse total da alta da arroba ao preço final da carne.
"Apesar da valorização recente da arroba, os contratos futuros continuam negociados com prêmio relevante sobre o mercado físico, mantendo oportunidades atrativas para operações de hedge e proteção de margens", avalia o analista. Esse prêmio nos contratos futuros funciona como um termômetro: o mercado aposta que o boi gordo ainda vai valorizar, e produtores de MS que travarem preço agora podem garantir margem melhor lá na frente.
O movimento é uma continuidade do que o MSConecta já vinha mostrando: frigoríficos menores de MS seguem pressionados pela dificuldade de fechar compra de boiadas, e a oferta restrita de gado, somada ao câmbio favorável, já vinha puxando a arroba para cima em setembro.
No mercado atacadista, os preços da carne bovina ficaram estáveis a levemente mais altos ao longo da semana, com pouco espaço para nova valorização no curto prazo. Iglesias atribui essa acomodação à concorrência do frango, que segue mais barato e limita o quanto o consumidor final aceita pagar pelos cortes bovinos.
Já nas exportações, o Brasil embarcou 130,313 mil toneladas de carne bovina fresca, congelada ou refrigerada nos 13 primeiros dias úteis de setembro, faturando US$ 819,206 milhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A média diária foi de US$ 63,015 milhões, com o preço da tonelada em US$ 6.286,40, alta de 11,9% ante o mesmo período de 2025. Em contrapartida, o volume médio diário exportado caiu 29,9% na comparação anual, e o valor total ficou 21,6% menor. Para o pecuarista de Mato Grosso do Sul, o retrato é de um mercado que paga mais por menos boi disponível para exportar, o que ajuda a explicar por que a arroba resiste em alta mesmo com o abate mais curto.
Fontes: SAFRAS & MERCADO; SECRETARIA DE COMÉRCIO EXTERIOR (SECEX); CANAL RURAL