Embrapa e USP criam sensor que detecta antibióticos no leite com fio de náilon

Dispositivo de baixo custo identifica três tipos de resíduos em amostras bovinas e caprinas — tecnologia pode mudar o controle de qualidade nas propriedades leiteiras de MS

Por
Embrapa e USP criam sensor que detecta antibióticos no leite com fio de náilon
Divulgação

Pesquisadores da Embrapa Instrumentação, da Universidade de São Paulo (USP), da UFSCar, da UFBA e da americana Drexel University desenvolveram um dispositivo capaz de identificar resíduos de antibióticos em amostras de leite de vaca e de cabra com sensores feitos de simples fios de náilon — sem os eletrodos de ouro caros usados em gerações anteriores da tecnologia. Os resultados foram publicados na revista científica ACS Omega e divulgados neste domingo, 6 de setembro de 2026.

A relevância para o agronegócio sul-mato-grossense é direta: Mato Grosso do Sul concentra um dos maiores rebanhos bovinos do país e uma cadeia leiteira crescente, especialmente nas regiões de Dourados e Campo Grande. Qualquer ferramenta que reduza o custo de rastreabilidade de resíduos químicos no leite interessa a produtores, cooperativas e laticínios do estado — ainda que a tecnologia siga em fase laboratorial.

Como o dispositivo lê o leite sem reagentes sofisticados

O equipamento funciona com três sensores distintos: cada fio de náilon é mergulhado em uma solução contendo MXenes — materiais formados por folhas extremamente finas de compostos metálicos. As partículas aderem à fibra e formam uma camada sensível que reage quimicamente ao ambiente da amostra analisada. Quando o sensor entra em contato com o leite, as moléculas presentes alteram as propriedades elétricas do material, gerando sinais que são processados por algoritmos capazes de reconhecer padrões.

O conjunto de leituras dos três sensores forma o que os pesquisadores chamam de "impressão digital" da amostra — daí a comparação com uma língua humana, que combina diferentes percepções para identificar sabores. No laboratório, o sistema reconheceu resíduos de cloxacilina, tetraciclina e estreptomicina mesmo quando os três antibióticos estavam presentes simultaneamente na mesma amostra. "Por meio de um dispositivo de baixo custo, cujos sensores são formados por fibras de náilon revestidas com diferentes MXenes, conseguimos detectar pequenas quantidades de antibióticos em leite e fazer a diferenciação entre amostras de leite de vaca e leite de cabra", explicou Murilo Facure, professor da Escola de Engenharia de São Carlos da USP e primeiro autor do estudo.

Potencial para a cadeia do leite, mas caminho ainda é longo

A presença de resíduos de antibióticos no leite é um problema sanitário e comercial: além do risco à saúde do consumidor, animais tratados com essas substâncias devem respeitar períodos de carência antes da ordenha. A fiscalização atual depende de métodos laboratoriais mais lentos ou de kits comerciais que testam poucos compostos por vez — e com custo maior por análise.

O diferencial do novo sistema está na substituição dos eletrodos de ouro por náilon revestido com MXenes, o que reduz o custo de fabricação sem comprometer a sensibilidade da detecção. Ainda assim, os autores são claros: a tecnologia está em fase de testes em laboratório e precisará de validação em condições reais de campo antes de chegar a propriedades rurais ou indústrias de laticínios. Para os produtores de Mato Grosso do Sul, o estudo é um sinal de que ferramentas acessíveis de rastreabilidade do leite estão mais perto de se tornarem viáveis — mas ainda não são uma realidade disponível no mercado.

Fontes: EMBRAPA INSTRUMENTAÇÃO; CANAL RURAL; ACS OMEGA


Notícias Relacionadas »