A União Europeia suspendeu na quinta-feira (3 de setembro de 2026) a importação de determinados produtos de origem animal brasileiros — entre eles carnes bovina e de frango, mel, equinos, tripas e produtos da aquicultura —, e o setor produtivo já contabiliza os estragos. Estimativas do Paraná e do Rio Grande do Sul somadas apontam para perdas de aproximadamente R$ 2,6 bilhões, segundo projeções apresentadas por entidades rurais dos dois estados.
A medida preocupa não apenas quem exporta diretamente para a Europa, mas toda a cadeia de proteína animal brasileira — inclusive Mato Grosso do Sul, um dos principais estados exportadores de carne bovina do país. O risco que o setor enxerga vai além do veto em si: a Europa funciona como certificado de qualidade para outros mercados, e perder esse acesso pode abrir brechas em negociações com países que usam os padrões sanitários europeus como referência.
No Paraná, o Sistema FAEP calcula impacto superior a US$ 392,2 milhões, com base no volume exportado em 2025 para o bloco: US$ 382 milhões só em carne de frango (118,7 mil toneladas) e outros US$ 10,2 milhões em carne bovina. Apenas no primeiro semestre de 2026, antes da suspensão, o estado já havia vendido cerca de US$ 224 milhões em frango para a UE. O bloco europeu responde por aproximadamente 5% das exportações paranaenses de carnes — fatia que, em valores absolutos, é expressiva para um estado que lidera a avicultura nacional e vende para mais de 150 países.
No Rio Grande do Sul, a estimativa apresentada durante a Expointer é de R$ 600 milhões em perdas, concentradas principalmente na cadeia do frango. "Precisamos manter nossos produtos no mercado europeu, pois é uma importante vitrine para o agro brasileiro e paranaense", afirmou Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema FAEP, ressaltando o peso simbólico e estratégico do acesso ao bloco.
O ponto que mais alarma o setor produtivo é o chamado efeito de contágio em outros mercados. "Muitos países tomam como base o atendimento às exigências sanitárias da UE para tomar suas próprias decisões. Se o bloco europeu tem uma exigência e o Brasil atende, outros países também compram de nós sem necessidade adicional de vistorias ou inspeções", explicou Meneguette. A lógica inversa também vale: um veto europeu pode gerar desconfiança em compradores asiáticos, do Oriente Médio e de outros blocos que adotam os critérios da UE como parâmetro.
Para Mato Grosso do Sul — estado com rebanho bovino entre os maiores do Brasil e cadeia de exportação de carne consolidada —, esse efeito de segunda ordem é o cenário mais temido. A suspensão europeia não atinge só quem tinha embarque marcado para Hamburgo ou Lisboa: ela pode redesenhar negociações em andamento com mercados que olham para a Europa antes de assinar contratos com frigoríficos sul-mato-grossenses.
Fontes: SISTEMA FAEP; CANAL RURAL