O produtor rural de Mato Grosso do Sul está no centro de uma armadilha financeira que se fechou em 2026: ao mesmo tempo em que os eventos climáticos extremos no Brasil praticamente dobraram entre 2020 e 2023 — de 2.962 para 6.772 ocorrências, segundo o Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz —, o governo federal cortou R$ 518 milhões do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), derrubando o orçamento de R$ 1,01 bilhão para cerca de R$ 473,8 milhões. O resultado é paradoxal: o seguro ficou mais necessário e, ao mesmo tempo, menos acessível.
O impacto chega direto às regiões que sustentam o agronegócio sul-mato-grossense. Em municípios como Maracaju, Chapadão do Sul, Dourados e São Gabriel do Oeste — que respondem por fatias expressivas da produção de soja e milho do estado —, o seguro rural subvencionado é parte essencial do planejamento da safra. Sem ele, o custo da apólice sobe, e o banco que analisa o crédito rural passa a enxergar o produtor como risco maior.
Os números do PSR mostram o tamanho do rombo. Em 2026, o programa sofreu primeiro um bloqueio de R$ 461,7 milhões e, em seguida, um corte definitivo adicional de R$ 56,3 milhões, remanejados para outras ações do Ministério da Agricultura. O orçamento resultante, de cerca de R$ 473,8 milhões, ficou abaixo do que foi efetivamente executado em 2025 — ou seja, o programa encolheu em termos reais num ano em que as perdas climáticas crescem. A Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) calculou que, entre 2022 e 2024, os prejuízos causados por eventos climáticos no Brasil somaram R$ 180 bilhões, com cerca de metade concentrada no agronegócio. E reagiu ao cenário: revisou a projeção de crescimento do mercado de seguro rural para 2026, transformando a expectativa positiva numa queda nominal de 3,9%. Não por falta de demanda — mas por falta de acesso.
Para quem financia a produção, o efeito é direto. Instituições financeiras já incorporaram previsão climática e gestão de risco na análise de crédito rural, ao lado do histórico de produção e da capacidade operacional do tomador. Fenômenos como El Niño e La Niña entram na equação porque afetam a produtividade e, portanto, a capacidade de pagamento do produtor. Quem não tem seguro — ou tem cobertura insuficiente — vira um risco maior nos modelos das instituições, e paga mais caro pelo dinheiro.
Nesse contexto, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), definido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, deixou de ser apenas uma recomendação técnica e se tornou um divisor de águas contratual. Se o produtor planta fora da janela oficial estabelecida no zoneamento e a lavoura quebra por evento climático, a seguradora pode recusar o pagamento da indenização. A jurisprudência dos tribunais estaduais tem validado essas exclusões de cobertura — desde que a condição esteja expressa na apólice e o segurado tenha declarado ciência das recomendações do MAPA na proposta de seguro. O entendimento predominante trata o ZARC como instrumento de política agrícola, não como mera orientação. Isso significa que plantar fora do calendário, mesmo que por razões práticas como chuvas irregulares no início da estação, pode custar ao produtor não só a safra, mas também a indenização que deveria cobrir o prejuízo.
A alternativa que vem ganhando espaço é o seguro paramétrico, modalidade que dispensa vistoria de campo e aciona o pagamento a partir de gatilhos climáticos objetivos monitorados por satélite — índices de seca, excesso de chuva ou granizo, por exemplo. Segundo estudo do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro, o número de apólices desse tipo saltou de 4 contratos em 2021 para 171 em 2024, com R$ 21,6 milhões segurados. O crescimento é expressivo, mas o mesmo estudo alerta: a efetividade do modelo depende de uma base de dados meteorológicos robusta e histórica, ainda deficiente no Brasil — o que limita sua expansão justamente nas regiões onde os dados são mais escassos. Para os produtores de MS interessados em novas formas de proteção financeira ligadas ao campo, experiências como as vacas tokenizadas como garantia de crédito rural apontam que o mercado busca alternativas onde o Estado deixa lacunas.
O diagnóstico que emerge dos dados é simples e preocupante: o sistema de proteção do agronegócio brasileiro ainda depende de subvenção pública instável para funcionar, num momento em que os riscos climáticos crescem de forma acelerada. Inovações como o seguro paramétrico e os ajustes nos modelos de crédito são respostas pontuais a um problema estrutural — e não substituem o papel do Estado na proteção do produtor rural.
Fontes: FIOCRUZ; CONFEDERAÇÃO NACIONAL DAS SEGURADORAS (CNSEG); FGV AGRO; CANAL RURAL