A história de uma família de suinocultores de Arabutã, no oeste de Santa Catarina, que triplicou o número de matrizes em três décadas — de 500 para 1.500 cabeças — e agora prepara a terceira geração para assumir o comando da granja, chega como espelho para os produtores de Mato Grosso do Sul. No estado, a produção de suínos cresceu 18% no primeiro semestre, mas o preço pago ao produtor despencou 25% no mesmo período, segundo levantamento publicado pelo MSConecta — uma combinação que torna a eficiência operacional e o planejamento sucessório questões de sobrevivência, não de escolha.
A trajetória dos pais de Viviane Usinger começou em 1994, quando a família largou as lavouras de milho e soja em meio a dificuldades financeiras e apostou na criação de leitões. O projeto nasceu com resistência da vizinhança e tropeçou logo no início: sem dinheiro suficiente para concluir a granja antes do inverno, a família perdeu animais e precisou buscar crédito bancário para retomar as obras. O negócio só engrenhou com o suporte da empresa integradora à qual estava vinculada.
Hoje, a propriedade que Viviane herdou dos pais emprega dez pessoas, tem instalações climatizadas e sistema automatizado — e opera com o triplo das matrizes do início. A transformação não foi linear: exigiu acesso a crédito, integração com a indústria e uma gestão progressivamente mais técnica. "Quando meu pai começou, todo mundo chamou ele de louco. Imagina, era a primeira granja aqui na nossa região desse tamanho", lembra Viviane.
Esse modelo — em que a granja familiar cresce por etapas, sustentada pela parceria com integradoras e pela reinversão dos resultados — é exatamente o que diferencia as operações que resistem das que ficam pelo caminho quando o preço despenca. Em MS, onde a produção avança mas a margem encolhe, o caminho da automação e da escala mínima eficiente ganha urgência.
Bruno, filho de Viviane e neto dos fundadores, já trabalha na propriedade e cursa Agronomia. Ele participa de um programa de formação voltado especificamente à sucessão rural. A expectativa da família é que ele assuma a gestão da granja no futuro — mas o processo é gradual e intencional, não uma transferência automática de chaves. "Eu espero mesmo que o Bruno pegue e toque isso. Claro, ele não vai ser meu sucessor agora, de imediato. Mas ele estando comigo, trabalhando com a gente e com o que está aprendendo, acho que vai ser um baita sucessor", diz Viviane.
A sucessão planejada na suinocultura é um gargalo reconhecido no setor: sem preparo formal, granjas familiares tendem a perder competitividade na transição entre gerações. O caso dos Usinger aponta que o caminho passa por formação técnica do herdeiro combinada com presença cotidiana na operação — um modelo que produtores de MS, especialmente nos municípios com maior densidade de suinocultura, têm buscado replicar para garantir que o crescimento de escala do setor se converta em resultado real para as famílias.
Fontes: CANAL RURAL; MSCONECTA