Quem domina a ciência que vira negócio dita as regras da próxima economia.
Nesta semana estive em São Paulo, no InovaUSP, participando do Encontro Nacional de Lideranças em Deep Techs, que encerra o ciclo 2026 do Fórum Brasileiro de Deep Techs, realizado pela Wylinka com patrocínio da Finep e do MCTI. Voltei com uma convicção reforçada: o desenvolvimento das próximas décadas será decidido pela capacidade de transformar ciência em empresas. E Mato Grosso do Sul precisa estar nessa mesa.
Deep techs são startups que nascem de descobertas científicas ou de engenharia de fronteira. Não vendem aplicativos; vendem bioinsumos, novos materiais, diagnósticos, sensores, genética e energia. Exigem mais tempo e mais capital, mas constroem vantagens difíceis de copiar, porque se apoiam em conhecimento protegido.
O mundo já entendeu o recado. Levantamento da gestora Celesta Capital, apresentado em abril deste ano, mostra que as deep techs respondem por 36% de todo o capital de risco global, quase o triplo da fatia registrada em 2016. Na Suíça, cerca de 60% do venture capital entre 2019 e 2025 foi destinado a empresas de base científica. Estados Unidos, China e União Europeia tratam o tema como questão de soberania.
O Brasil tem matéria-prima, mas ainda não tem escala. Segundo o Deep Tech Radar Latam 2025, da Emerge em parceria com o Cubo Itaú, o país reúne 952 das 1.316 deep techs mapeadas na América Latina, 72,3% do total, e mais que dobrou esse número desde 2019. Porém, captou apenas US$ 216 milhões, atrás do Chile (US$ 607 milhões) e da Argentina (US$ 486 milhões). Quase metade das nossas deep techs nunca recebeu investimento, e só 7% acessaram capital privado. São Paulo, sozinho, concentra 467 delas.
É aqui que a conversa interessa a Mato Grosso do Sul. Saúde (38%) e agroalimentos (28%) lideram o perfil das deep techs brasileiras. É exatamente o território em que o estado tem vantagem: três unidades da Embrapa, universidades com pesquisa consolidada em agronomia, zootecnia, biotecnologia e saúde, uma fundação de amparo à pesquisa estruturada e cadeias produtivas que demandam inovação de verdade, da celulose à proteína animal, da bioenergia à agricultura de baixo carbono.
Mesmo assim, o ciclo 2026 do Fórum passou por Belo Horizonte, Santarém, Porto Alegre, Goiânia e Salvador. Goiás, nosso vizinho no Centro-Oeste, recebeu uma das etapas com participação ativa de sua secretaria de ciência e tecnologia. Mato Grosso do Sul ainda não está nesse mapa.
Nos anos à frente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fundect) e do CONFAP – Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, aprendi que inovação de fronteira não surge por geração espontânea. Exige política de Estado, continuidade e uma coordenação capaz de falar ao mesmo tempo a língua do laboratório, do investidor e do gestor público. As regiões que mais crescem no mundo fizeram essa escolha de forma deliberada.
Proponho cinco movimentos. Primeiro, mapear as deep techs e as pesquisas com potencial de virar empresa em nossas universidades, institutos federais e na Embrapa, porque não se gerencia o que não se mede. Segundo, estruturar uma trilha de financiamento contínua, da pré-aceleração ao capital semente, combinando recursos da Fundação de Amparo (Fundect), da Finep e do BNDES com fundos privados. Terceiro, convidar as grandes empresas âncoras do estado a lançar desafios tecnológicos e a serem as primeiras clientes dessas startups. Quarto, usar o poder de compra do Estado, com instrumentos já previstos no Marco Legal das Startups e na encomenda tecnológica. Quinto, instituir uma coordenação estadual dedicada às deep techs, com metas, orçamento e interlocução direta com o ecossistema nacional, começando por trazer uma etapa do Fórum Brasileiro de Deep Techs para Campo Grande em 2027.
Mato Grosso do Sul já lidera o Centro-Oeste no Ranking de Competitividade dos Estados apoiado na força do agro. A próxima etapa é crescer apoiado no conhecimento que o agro, a floresta plantada e o Pantanal podem gerar. As deep techs são essa ponte. Fica a provocação: vamos seguir exportando commodities ou também a ciência que as torna mais valiosas?
Fontes: Deep Tech Radar Latam 2025 (Emerge e Cubo Itaú); Celesta Capital, Deep Tech Week NYC (abril de 2026); Swiss Deep Tech Report 2025 (Deep Tech Nation Switzerland e Dealroom); Fórum Brasileiro de Deep Techs (Wylinka); Ranking de Competitividade dos Estados 2026 (CLP).