25/08/2026 às 06h54min - Atualizada em 25/08/2026 às 06h54min

AFINAL, O QUE SE FAZ DENTRO DE UM AMBIENTE DE INOVAÇÃO?

A resposta explica por que alguns desses espaços mudam a economia da cidade inteira e outros terminam como um prédio bem localizado.

Luan Argemon

Luan Argemon

Luan Argemon é contador, especialista em inovação e empreendedorismo, com MBA em Gestão da Inovação e pós-graduação em Liderança e Gestão de Pessoas.

“Prédio se inaugura em dois anos. Ecossistema leva vinte. Quem ignora essa diferença entrega obra, não inovação.” 

Quando se fala em ambiente de inovação, a imagem que vem à cabeça costuma ser a de um prédio novo, fachada de vidro e placa de inauguração. Trabalhando diariamente com incubação, startups e ecossistemas de inovação, aprendi que essa é a parte mais fácil e a menos determinante. O que separa um ambiente capaz de transformar a economia de uma cidade de outro que apenas ocupa espaço não está no metro quadrado, e sim em como ele é governado. 

Antes da opinião, os números. O estudo "Evolução, Impacto e Potencial dos Parques Tecnológicos do Brasil", lançado em outubro de 2025 pelo MCTI com a Universidade Federal de Viçosa e a Anprotec, mostra que o país reúne 113 iniciativas de parques tecnológicos, 64 delas em operação. A elas estão vinculadas 2.706 empresas, com faturamento anual estimado em R$ 15 bilhões, mais de R$ 1 bilhão em impostos e 75 mil empregos qualificados. Entre 2017 e 2023, o faturamento total dessas empresas cresceu 170% e o patenteamento mais que dobrou. 

São bons números, mas falam de dentro para dentro. A pergunta que mais me interessa é outra: o que acontece com a cidade em volta? 

A evidência mais convincente vem da Espanha. Alberto Albahari, da Universidade de Málaga, apresentou na 35ª Conferência Anprotec um estudo econométrico mostrando que províncias espanholas com parques tecnológicos registraram 43% mais patentes entre seis e dez anos após a implantação, e 73% mais entre onze e quinze anos. O dado que muda a conversa é este: 57% desse efeito veio de empresas situadas fora dos limites físicos do parque. 

Ou seja, o principal produto de um ambiente de inovação não são as empresas que ele abriga. É a mudança que provoca no entorno, na cultura empresarial da região, na relação entre universidade e mercado, na disposição de um empresário tradicional a testar algo novo. Menos condomínio, mais referência. 

Repare, porém, no prazo. Seis anos para o efeito começar a aparecer, mais de dez para ficar evidente. Os parques brasileiros têm idade média de 12 anos e, segundo o estudo do MCTI, só alcançam ocupação plena depois de duas décadas. Nenhum desses prazos cabe dentro de um mandato. É aí que a governança deixa de ser detalhe administrativo e vira condição de existência. 

Existe um termo bastante usado no setor para o que dá errado nesse caminho: elefante branco. É a estrutura pronta, inaugurada, que não cumpre seu papel porque nunca construiu interação real com o setor acadêmico e produtivo. Já vi essa história de perto, e ela raramente começa com má intenção. Começa com um prédio entregue antes de alguém definir para quem ele serve. 

Costumo cobrar de empreendedores perguntas difíceis. Qual problema você resolve? Para quem? Alguém paga por isso? Como validou a hipótese? O modelo se sustenta sem subsídio permanente? Essas mesmas perguntas quase nunca são dirigidas ao próprio ambiente de inovação, embora ele também seja um negócio, com cliente, proposta de valor e necessidade de sustentação. Governança é a estrutura que obriga alguém a respondê-las: quem decide, sob quais critérios, com quais indicadores públicos, prestando contas a quem, e como universidade, empresa, poder público e sociedade se sentam à mesma mesa sem que um capture a agenda dos demais. 

Mato Grosso do Sul ilustra bem essa relação. No Ranking de Competitividade dos Estados 2025, do Centro de Liderança Pública, o Estado saltou da 17ª para a 9ª posição no pilar Inovação, avanço puxado principalmente por produção científica e por investimento em pesquisa e desenvolvimento. No mesmo ranking, porém, aparece em 17º lugar no indicador de estrutura de apoio à inovação, que considera incubadoras, parques tecnológicos e fundos de capital semente. 

Ou seja, produzimos conhecimento e articulação mais rápido do que estrutura instalada para transformar isso em negócio. Vejo aí menos uma contradição e mais uma ordem de fatores, com movimento concreto acontecendo: doze ecossistemas locais estruturados e R$ 5 milhões destinados por edital público a 37 projetos em 11 municípios, entre incubadoras, espaços maker, hubs, pré-incubadoras, coworkings, polos tecnológicos e uma aceleradora. Segundo o Observatório Sebrae Startups, são 580 startups ativas, o maior número do Centro-Oeste. 

O risco agora é o de sempre. Recurso e prédio são a parte visível e comemorável. O que decide se aquilo vira desenvolvimento é menos fotogênico: continuidade entre gestões, critério real de seleção, indicadores publicados, conselho com participação efetiva do setor produtivo, gestor com autonomia e cobrança. 

Fica uma pergunta para quem coordena, financia ou frequenta esses espaços. Se o ambiente de inovação da sua cidade fechasse as portas amanhã, quantas empresas, pesquisadores e empreendedores sentiriam falta? Se a resposta se limitar a quem está lá dentro, ainda estamos diante de um imóvel bem localizado. Governança é o que transforma imóvel em ecossistema. 

 

Luan Argemon é superintendente de Inovação e Novos Negócios do Parque Tecnológico de Campo Grande e empresário. Formado em Ciências Contábeis, com MBA em Gestão da Inovação e especialização em Liderança e Gestão de Pessoas, atua com empreendedorismo, startups, desenvolvimento de novos negócios e fortalecimento de ecossistemas de inovação. 

Instagram: @argemonluan 

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/luan-argemon-a9763b47/ 

Fontes utilizadas: MCTI, UFV e Anprotec, estudo “Evolução, Impacto e Potencial dos Parques Tecnológicos do Brasil” (outubro de 2025); Alberto Albahari, Universidade de Málaga, apresentação na 35ª Conferência Anprotec (2025); Centro de Liderança Pública, Ranking de Competitividade dos Estados 2025; Semadesc e Fundect (MS); Observatório Sebrae Startups. 

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