‘’ Colocar IA sobre a burocracia não elimina a burocracia; apenas a faz funcionar mais rápido.’’
Durante muito tempo, digitalizar o governo significou transformar papel em formulário eletrônico. Depois vieram portais, aplicativos, assinatura digital e, mais recentemente, inteligência artificial. Tudo isso importa. Mas a pergunta central é: a vida do cidadão ficou realmente mais simples?
A melhor tecnologia pública não é necessariamente a mais sofisticada. É aquela que elimina etapas, reduz a espera e evita que uma pessoa precise entender a estrutura do Estado para conseguir exercer um direito.
Ainda convivemos com uma contradição curiosa. O governo possui uma enorme quantidade de informações sobre cada cidadão, mas muitas vezes continua pedindo que ele apresente documentos que outro órgão público já possui. É como se uma empresa conhecesse seu cliente há anos e, a cada atendimento, perguntasse novamente seu nome, endereço e histórico.
É justamente aqui que está uma das transformações mais importantes e ainda menos visíveis, como a do governo digital: a interoperabilidade. Em termos simples, sistemas públicos precisam conversar entre si, com segurança e finalidade definida. Quando isso acontece, o cidadão deixa de ser o “mensageiro” encarregado de transportar informações de uma repartição para outra.
Tive a oportunidade de visitar a Estônia por três anos consecutivos e conhecer, na prática, como funciona seu modelo de interoperabilidade. Um exemplo que me marcou acontece logo após o nascimento de uma criança: as instituições de educação infantil próximas à residência da família são notificadas para se prepararem para recebê-la no futuro. Quando chega o ano de iniciar a vida escolar, a família já recebe a matrícula encaminhada, acompanhada das orientações necessárias. É o governo deixando de apenas reagir às demandas para começar a antecipá-las, agindo antes mesmo de ser solicitado.
Os resultados mostram que essa lógica já deixou de ser apenas uma promessa. O Conecta GOV.BR, iniciativa federal de interoperabilidade, já acumulou, até julho de 2025, mais de 2,7 bilhões de transações e uma economia estimada superior a R$ 16 bilhões. Mais importante que o número, porém, é o princípio por trás dele: se o Estado já possui determinada informação, por que exigir que o cidadão a entregue novamente?
Esse princípio muda completamente a forma de pensar a tecnologia no setor público.
No meu dia a dia, incentivo a equipe a perguntar “qual problema do cidadão queremos eliminar?”. Em vez de medir a transformação digital pela quantidade de serviços colocados na internet, deveríamos medir quantas horas, deslocamentos, documentos, filas e etapas foram eliminados da jornada das pessoas.
A inteligência artificial amplia ainda mais essa possibilidade. Mas existe um risco: usar uma tecnologia nova para automatizar processos antigos e ruins. Colocar IA sobre a burocracia não elimina a burocracia; apenas a faz funcionar mais rápido.
O verdadeiro salto acontece quando dados integrados, inteligência artificial e desenho de serviços trabalham juntos. Imagine um governo capaz de identificar automaticamente que uma pessoa tem direito a determinado benefício, antecipar uma necessidade, alertar sobre uma pendência antes que ela vire um problema ou orientar o cidadão sem obrigá-lo a descobrir qual secretaria, departamento ou sistema é responsável pelo assunto.
Nesse modelo, o governo deixa de ser apenas digital e passa a ser proativo.
Isso exige tecnologia, mas também exige governança de dados, segurança, responsabilidade no uso de algoritmos e integração entre instituições. O debate brasileiro sobre inteligência artificial no setor público já começa a incorporar esses elementos, assim como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e a Estratégia Nacional de Governo Digital. O desafio, portanto, não é mais provar que a tecnologia pode melhorar o Estado, mas transformar capacidade tecnológica em experiência concreta para a população.
Para quem trabalha com tecnologia e governo, essa mudança também altera a responsabilidade das empresas. Não basta entregar software funcionando. É preciso compreender políticas públicas, processos, usuários, legislação e resultados esperados. O valor de uma govtech não deveria ser medido apenas pelas funcionalidades que desenvolve, mas pela quantidade de complexidade que consegue retirar da relação entre Estado e sociedade.
Existe uma frase comum no mundo da tecnologia: a melhor interface é aquela que o usuário quase não percebe. Talvez possamos aplicar a mesma lógica ao serviço público.
O futuro do governo digital não será definido pelo número de aplicativos instalados no celular do cidadão. Será definido pela quantidade de vezes que ele não precisará abrir nenhum deles porque o Estado conseguiu integrar dados, antecipar necessidades e resolver o problema antes que a burocracia aparecesse.
Tecnologia pública de verdade não é ensinar o cidadão a navegar melhor pelo governo.
É fazer o governo aprender a servir melhor o cidadão.
Fontes: Estratégia de Inteligência Artificial (E-IA/MGI 2025-2027) — Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos
Interoperabilidade — Governo Digital