"A próxima década será medida por outro critério: não mais pela estrutura que conseguimos erguer, mas pelo valor que conseguirmos gerar a partir dela."
O Centro de Liderança Pública divulgou a edição de 2026 do Ranking de Competitividade dos Estados, estudo que avalia as 27 unidades da federação em dez pilares temáticos, com desenvolvimento técnico da Tendências Consultoria. Mato Grosso do Sul aparece na 10ª posição geral, mantendo-se no grupo dos estados mais competitivos do país. O dado mais relevante para quem acompanha ciência, tecnologia e inovação, contudo, está em outro lugar da tabela.
No pilar de Inovação, o Estado alcançou 56,6 pontos e ocupa a 12ª posição nacional. É a melhor colocação de todo o Centro-Oeste, à frente do Mato Grosso, com 32,4 pontos, do Distrito Federal, com 27,3, e de Goiás, com 26,4. A diferença não é marginal: a nota sul-mato-grossense é praticamente o dobro da registrada pelo segundo colocado da região. E a trajetória é ascendente, com o Estado saindo da 17ª posição em 2024 para a 14ª em 2025 e a 12ª agora, dois avanços consecutivos.
Vale entender o que sustenta esse desempenho, porque a resposta não está no acaso. O indicador de estrutura de apoio à inovação, que mede incubadoras, aceleradoras, parques tecnológicos e parques científicos associados à Anprotec para cada milhão de habitantes, coloca Mato Grosso do Sul em 6º lugar no Brasil e em primeiro na região. Em bolsas de mestrado e doutorado, medidas pela proporção de pós-graduandos beneficiados por CNPq, Capes e fundações estaduais, o Estado é o 8º do país. Em investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento, ocupa a 11ª posição, novamente a melhor do Centro-Oeste. Em empresas de alto crescimento, aparece em 6º.
Esses números descrevem uma década de construção institucional. Fundações de amparo à pesquisa consolidadas, editais regulares, marco legal de inovação implementado, parques tecnológicos instalados e programas contínuos de formação de talentos não produzem resultado imediato, mas produzem base. O reflexo mais expressivo dessa base aparece no pilar de Capital Humano, no qual Mato Grosso do Sul ocupa a 2ª posição nacional, atrás apenas de Santa Catarina, tendo subido da 17ª colocação em 2022. Some-se a isso o 5º lugar em Eficiência da Máquina Pública e o maior avanço do país em Solidez Fiscal nesta edição, com ganho de seis posições. Há um Estado organizado por trás desses indicadores.
O mesmo estudo, porém, revela com precisão onde está o próximo desafio. Se em estrutura de apoio à inovação o Estado é o 6º do Brasil, em patentes, medidas pelas concessões do INPI em relação ao PIB, a posição cai para a 18ª. Em participação das atividades de informação e comunicação na economia, também 18ª. Em pesquisa científica, 13ª. Ou seja, temos ambiente instalado e capital humano qualificado, mas ainda convertemos pouco desse esforço em propriedade intelectual, em produtos de maior valor agregado e em setores intensivos em tecnologia.
Essa distância entre estrutura e resultado é, a rigor, o melhor diagnóstico possível. Ela indica que a etapa mais difícil, que é criar ecossistema onde não havia, já foi vencida. O que se coloca agora é uma agenda de conversão, e ela tem contornos bastante objetivos.
O primeiro ponto é fortalecer os núcleos de inovação tecnológica das universidades e institutos, dotando-os de capacidade real de proteger, licenciar e transferir tecnologia. Patente não nasce apenas de pesquisa; nasce de pesquisa somada a assessoria especializada e a rotina de proteção. O segundo é aproximar a pesquisa das cadeias produtivas que estão se instalando no Estado, da celulose à proteína animal, da bioeconomia à logística da Rota Bioceânica, transformando demanda empresarial em pauta de pesquisa aplicada. O terceiro é atrair e enraizar empresas intensivas em tecnologia, valendo-se justamente da estrutura já disponível e do capital humano que o próprio ranking destaca. O quarto é assegurar previsibilidade ao financiamento da pesquisa, porque nenhum dos indicadores acima responde a esforços de curto prazo.
Mato Grosso do Sul chegou onde poucos estados de porte semelhante chegaram. Construiu, em uma década, o alicerce que o coloca à frente de sua região e dentro do grupo mais competitivo do país. A próxima década será medida por outro critério: não mais pela estrutura que conseguimos erguer, mas pelo valor que conseguirmos gerar a partir dela. É uma tarefa que exige continuidade, articulação entre governo, universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo, e a compreensão de que inovação é política de Estado, não projeto de gestão. Os dados mostram que estamos no caminho. Cabe agora percorrê-lo até o fim.
Fonte: Ranking de Competitividade dos Estados 2026, Centro de Liderança Pública (CLP), com desenvolvimento técnico da Tendências Consultoria.
Márcio de Araújo Pereira é professor da UEMS, doutor em Desenvolvimento Rural e analista de ciência, tecnologia e inovação. Foi presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP).
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