Uma plataforma digital criada por estudantes universitários de Campo Grande vai mudar a forma como o Samu Regional coordena seus atendimentos na cidade. O sistema, chamado Ambulink, foi entregue oficialmente nesta semana no auditório do Senac Hub Academy e agora entra na fase de implantação na Central de Regulação das Urgências e nas viaturas — reunindo, em um único ambiente, localização em tempo real das ambulâncias, registro de ocorrências, mapeamento de bases e unidades de saúde e dados operacionais que ajudam a decidir qual equipe deve atender cada chamado.
O projeto nasceu em novembro de 2024, dentro de um hackathon promovido pelo Senac MS — aquela maratona de programação em que equipes têm horas para resolver um problema real. O desafio apresentado foi o gargalo de informação que ainda existe no dia a dia do socorro de urgência: viaturas localizadas manualmente, fichas em papel, decisões tomadas sem visibilidade completa do que está acontecendo na rua. A solução que emergiu dali, agora validada e prestes a ser incorporada à rotina de cerca de 500 profissionais do Samu Regional — entre equipes de Campo Grande e municípios do interior vinculados ao serviço —, veio de jovens que, na época, ainda cursavam graduação.
O sistema concentra em tela funções que antes dependiam de comunicações fragmentadas. A Central de Regulação passa a enxergar em tempo real onde cada viatura está, qual ocorrência cada equipe está atendendo e quais unidades de saúde têm capacidade de receber o paciente. Além do mapa ao vivo, o Ambulink prevê digitalização de fichas e registros, assinaturas digitais e indicadores operacionais — dados que podem, ao longo do tempo, mostrar padrões de demanda e ajudar no planejamento do serviço. "A tecnologia poderá contribuir para decisões mais rápidas", resumiu Davi Rodrigues de Lima, 21 anos, estudante de Sistemas de Informação da UFMS e um dos integrantes da equipe desenvolvedora.
A próxima etapa, segundo Gabriel Santos, 22 anos, estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da UCDB e também parte da equipe, será a capacitação dos profissionais do Samu para operar a plataforma. A implantação técnica ficará sob responsabilidade da Agetec — agência municipal de tecnologia —, enquanto a Sesau e o próprio Samu conduzirão a integração do sistema à rotina operacional.
O Samu Regional de Campo Grande opera atualmente com 11 equipes de suporte básico, quatro de suporte avançado, uma equipe de motolância e a Central de Regulação, somando cerca de 250 profissionais só na capital. Quando se incluem os municípios do interior que integram o Samu Regional, esse número chega a quase 500 pessoas. "O sistema gera uma grande expectativa de melhorar a qualidade da assistência à população e também de aprimorar o trabalho dos profissionais do Samu", avaliou a dra. Isabella Mendonça, coordenadora médica do Samu Regional de Campo Grande. Para o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, a lógica é simples: "No Samu, cada minuto importa, e toda ferramenta que possa ajudar nossas equipes a trabalhar de forma mais integrada e tomar decisões mais rápidas representa um avanço no cuidado com as pessoas."
O Ambulink contou com suporte estrutural e bolsas do Governo do Estado, por meio da Semadesc — Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação —, além do envolvimento direto da Sesau e da Agetec. A diretora do Senac MS, Jordana Duenha, destacou durante a entrega o papel dos oito alunos egressos e do professor que conduziram o desenvolvimento. "Quando encontramos parceiros com o mesmo objetivo, conseguimos ir muito mais longe", disse ela. O consultor de Inovação do Senac MS, Nilson Oliveira Narezi, reforçou que o hackathon funcionou como ponte entre o mundo acadêmico e uma demanda concreta do serviço público de saúde.
O caso do Ambulink ilustra um caminho que Campo Grande começa a trilhar com mais regularidade: usar competições de tecnologia para resolver problemas reais da gestão pública, com custo menor e protagonismo de jovens talentos locais. Se a implantação confirmar os ganhos de agilidade esperados, a experiência pode servir de modelo para outros serviços de urgência no estado — e sinaliza que o ecossistema de tecnologia de Mato Grosso do Sul tem capacidade de produzir soluções que vão além da vitrine acadêmica.
Fontes: PREFEITURA DE CAMPO GRANDE, SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE (SESAU), SENAC MS