A Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul deu início, nesta quinta-feira (20 de agosto), a um programa de capacitação que vai percorrer as nove regiões de saúde do estado para preparar profissionais a lidar, ao mesmo tempo, com os efeitos do El Niño e o avanço de arboviroses como dengue e chikungunya. O ponto de partida são os municípios da Região Centro, próximos à Capital, com etapas seguintes previstas para cidades como Coxim, referência da região Norte, e municípios da Centro-Sul.
A urgência da iniciativa fica clara nos números: até o início de agosto, Mato Grosso do Sul acumulava 12.520 casos prováveis de chikungunya, dos quais 9.961 foram confirmados e 30 resultaram em morte — incidência de 454,2 casos por 100 mil habitantes. A dengue, por sua vez, somava 4.551 casos prováveis e 1.933 confirmações até a Semana Epidemiológica 31. O estado enfrenta, portanto, dois surtos em curso enquanto as condições climáticas associadas ao El Niño tendem a ampliar a pressão sobre o sistema de saúde nos meses seguintes.
A estratégia de treinamento vai além de aulas teóricas. Os profissionais participarão de simulados de mesa — dinâmicas em que cenários hipotéticos vão ficando mais complexos ao longo do exercício. Em um dos exemplos previstos, a equipe começa a organizar atendimentos para pacientes com problemas respiratórios causados por queimadas. Conforme a simulação avança, chegam casos de dengue e chikungunya, a demanda cresce, trabalhadores precisam ser remanejados e transferências de pacientes tornam-se necessárias. O objetivo é testar como cada município responderia com os recursos que realmente possui — sem presumir suporte que pode não estar disponível em uma emergência real.
Além dos simulados, está prevista a produção de um manual de manejo clínico destinado a médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. O material reunirá orientações práticas sobre ondas de calor, secas, queimadas e outros eventos que alteram o perfil dos pacientes atendidos nas unidades de saúde. A Defesa Civil também participará das atividades para explicar como os alertas de risco devem ser interpretados pela rede de saúde, e a Vigilância Epidemiológica receberá treinamento específico sobre os fluxos de notificação de ocorrências ligadas às condições climáticas.
No dia 31 de agosto, uma capacitação voltada especificamente a profissionais que atendem indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas será realizada no auditório do Conselho Estadual de Saúde, em Campo Grande. O encontro reunirá representantes da Vigilância, da Atenção Primária, de hospitais e de gestões municipais. Essas populações concentram vulnerabilidades que tornam os impactos climáticos e epidemiológicos ainda mais severos, tanto pelo acesso mais restrito à rede de saúde quanto pela exposição direta a ambientes afetados por queimadas e secas.
Webinários complementarão a formação presencial, alcançando trabalhadores dos 79 municípios sul-mato-grossenses com orientações sobre como as mudanças climáticas alteram a demanda por atendimento e quando é preciso reorganizar os serviços. Campo Grande terá uma capacitação exclusiva pelo volume de profissionais envolvidos, enquanto as demais regiões serão contempladas em etapas subsequentes.
Um dos alertas emitidos pelas autoridades de saúde chama atenção para um comportamento biológico do Aedes aegypti frequentemente subestimado: os ovos do mosquito sobrevivem em recipientes secos e retomam o ciclo de desenvolvimento assim que entram em contato com água novamente. Isso significa que a chegada das chuvas após um longo período de estiagem — padrão esperado nos meses à frente em função do El Niño — pode provocar explosão rápida de focos do transmissor da dengue e da chikungunya.
Tampinhas, copos, latas, vasos, pratos de plantas e calhas precisam ser monitorados mesmo durante a seca. A recomendação é especialmente relevante para municípios do interior de MS, onde a infraestrutura de coleta de resíduos pode ser mais limitada e a exposição às queimadas já eleva a demanda por atendimentos respiratórios. O estado aposta na preparação prévia das equipes justamente para evitar que esse acúmulo de pressões simultâneas sobrecarregue unidades que, sem planejamento, seriam pegas de surpresa.
Fontes: SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE MATO GROSSO DO SUL, VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA MS