O governo de Mato Grosso do Sul lançou um programa de capacitação técnica para preparar profissionais de saúde dos 79 municípios do estado a lidar com as consequências sanitárias dos eventos climáticos extremos — ondas de calor, estiagens, queimadas e chuvas intensas — intensificados pelo El Niño. As atividades já começaram pela Região Centro, que concentra os municípios do entorno de Campo Grande, e avançarão até o fim de agosto por todas as nove regiões de saúde do estado.
O programa não se limita a palestras teóricas. A lógica central é aproximar o treinamento da rotina real das unidades: cada município recebe uma programação adaptada ao seu próprio cenário de risco, e as equipes trabalham com simulados que recriam crises climáticas concretas — do tipo que já ocorreram ou têm alta probabilidade de ocorrer em cada localidade. A iniciativa reconhece que o clima deixou de ser um fator externo à saúde pública e passou a ser um determinante direto da demanda nos postos de saúde e hospitais sul-mato-grossenses.
Um dos pontos centrais das capacitações é a chamada transição seca-chuva, que concentra dois riscos simultâneos. Durante os meses de estiagem, a fumaça das queimadas e o ar extremamente seco aumentam a procura por atendimento respiratório nas unidades básicas de saúde. Ao mesmo tempo, os ovos do mosquito Aedes aegypti sobrevivem por meses em locais aparentemente secos — calhas, pratos de vasos, tampas e latas descartadas. Quando as primeiras chuvas chegam, esses ovos eclodem simultaneamente, gerando condições para surtos acelerados de dengue, zika e chikungunya.
Essa dinâmica cria uma janela crítica em que os serviços de saúde podem enfrentar, ao mesmo tempo, superlotação por doenças respiratórias e explosão de arboviroses. Os simulados de mesa reproduzem exatamente esse cenário: as equipes recebem um caso inicial de aumento de pacientes com problemas respiratórios por fumaça de queimadas e, conforme o exercício avança, novos desafios são inseridos, forçando os profissionais a reorganizar o atendimento em tempo real, dentro das limitações reais da sua unidade.
No próximo dia 31 de agosto, o auditório do Conselho Estadual de Saúde receberá uma capacitação voltada especificamente para o atendimento a populações vulneráveis: indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas. O encontro reunirá equipes de Vigilância Epidemiológica, profissionais de Atenção Primária, gestores hospitalares e secretários municipais de saúde. Essas populações estão entre as mais expostas aos efeitos do calor extremo, da seca e das enchentes, e frequentemente apresentam barreiras de acesso aos serviços convencionais de saúde.
Além dos encontros presenciais, o estado disponibilizará webinários para atualização contínua dos profissionais que não conseguirem participar dos treinamentos regionais. Após Coxim, referência da Região Norte, e a Região Centro-Sul, as demais regiões também entrarão no cronograma nas próximas semanas.
Para dar suporte permanente às equipes, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MS) prepara um manual em formato de apostila focado no manejo clínico de pacientes afetados por ondas de calor, secas e queimadas. O material orientará médicos, enfermeiros e técnicos a identificar mudanças no perfil dos pacientes diretamente associadas ao ambiente — sintomas que antes eram tratados de forma isolada, mas que passam a ser lidos como parte de um quadro climático mais amplo.
A Defesa Civil também participa das capacitações, treinando as equipes de saúde para interpretar alertas meteorológicos e antecipar demandas antes que uma crise se instale. A Vigilância Epidemiológica, por sua vez, expandiu seus protocolos para monitorar e notificar doenças diretamente ligadas ao clima, reforçando a integração entre saúde, meio ambiente e proteção civil num estado que já figura entre os mais afetados por queimadas e estiagens prolongadas no Brasil.
O programa chega num momento em que Mato Grosso do Sul enfrenta temporadas de seca cada vez mais severas no Pantanal e no Cerrado, com registros crescentes de queimadas em municípios como Corumbá, Aquidauana e Miranda. Preparar os serviços de saúde para esse cenário deixou de ser uma precaução pontual e passou a ser uma política de Estado.
Fontes: SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE MATO GROSSO DO SUL