A recusa da Rússia em negociar qualquer cessar-fogo no Mar Negro e os ataques mútuos a portos estratégicos de exportação de grãos reacenderam a tensão nos mercados agrícolas e levaram o milho a recuperar terreno na Bolsa de Chicago (CBOT) nesta sexta-feira, 14 de março. Por volta das 11h20 no horário de Brasília, os contratos futuros subiam entre 6,50 e 7,25 pontos, com o vencimento dezembro cotado a US$ 4,79 por bushel e o contrato de março de 2026 a US$ 4,95. O contrato para maio de 2027 já operava levemente acima dos US$ 5,00.
O dia foi marcado por um duplo combustível para a alta: de um lado, o trigo disparou mais de 2% nos contratos mais negociados, arrastando o milho na esteira; de outro, a geopolítica voltou ao centro do radar com episódios concretos de destruição de infraestrutura portuária. Na quarta-feira, forças ucranianas atingiram o porto russo de Novorossiysk, um dos principais pontos de embarque de grãos da Rússia. Em retaliação, a Rússia atacou o porto ucraniano de Izmail, localizado às margens do rio Danúbio. Os dois episódios jogaram água fria sobre qualquer expectativa de normalização da logística de exportação na região.
Autoridades russas foram além das hostilidades militares ao declarar, nesta sexta, ser impossível retomar um acordo nos moldes do corredor humanitário de 2023, que havia garantido passagem segura para exportações de grãos ucranianos pelo Mar Negro. O governo de Moscou classificou ações ucranianas como "atos descarados de terrorismo" contra embarcações, mas não mencionou os próprios ataques russos a infraestruturas portuárias. O impasse é relevante porque Rússia e Ucrânia respondem juntas por parcela significativa do trigo e do milho comercializados globalmente, e qualquer perturbação no corredor do Mar Negro afeta o ritmo e o custo do abastecimento mundial.
O movimento desta sexta combina, portanto, dois elementos distintos: o ajuste técnico natural após a queda da sessão anterior — quando investidores recompõem posições a preços mais baixos — e o suporte fundamental vindo das incertezas geopolíticas. Analistas acompanham ainda as previsões climáticas para os Estados Unidos, onde boas chuvas nos próximos cinco dias favorecem as lavouras, o que poderia limitar altas mais expressivas nas próximas sessões.
O relatório de agosto do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgado na quarta-feira, segue como pano de fundo relevante para as cotações. O documento reduziu a projeção de produtividade da safra norte-americana de milho, mesmo diante de uma área plantada maior — o que sinalizou ao mercado que o volume total pode ser menor do que se esperava. Ao mesmo tempo, o USDA revisou para cima as projeções de exportações americanas, reforçando a demanda pelo grão originário dos Estados Unidos.
Essa combinação — oferta interna pressionada por menor produtividade e demanda externa mais aquecida — cria um piso de sustentação para os preços, mesmo em dias de maior pressão baixista. É esse contexto que faz com que os investidores aproveitem recuos para recompor posições, como ocorreu nesta sessão.
No mercado futuro brasileiro, a B3 acompanhou o movimento de Chicago com ganhos de cerca de 0,5% nos principais vencimentos. O contrato de setembro foi cotado a R$ 69,73 por saca, enquanto o vencimento de março de 2027 chegou a R$ 78,33. O dólar contribuiu para ampliar a valorização em reais ao romper a barreira dos R$ 5,20, dando fôlego adicional ao cereal na bolsa brasileira.
Para Mato Grosso do Sul, um dos maiores estados produtores de milho do país, a dinâmica é de dupla atenção. Produtores que ainda têm grão em estoque ou contratos a fixar observam com interesse a janela de recuperação nas cotações. Ao mesmo tempo, o setor de pecuária — intenso consumidor de milho como ração no estado — monitora se a recuperação dos preços se consolida ou se volta a perder força com o avanço da safra norte-americana. O cenário geopolítico, por ora, mantém o mercado em estado de alerta e impede que os preços recuem de forma mais pronunciada.
A próxima semana será monitorada de perto: qualquer nova movimentação militar nas rotas do Mar Negro ou revisão nas projeções climáticas dos EUA pode definir a direção das cotações nas sessões seguintes.
Fontes: CBOT, USDA, B3, NOTÍCIAS AGRÍCOLAS