O mercado brasileiro de soja encerrou a sessão desta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, com cotações em terreno positivo nas principais praças produtoras e nos portos, mesmo após o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divulgar um relatório considerado de tom entre neutro e baixista. A sustentação dos preços veio de fora: a China sinalizou forte demanda pelo grão americano, enquanto o conflito no Mar Negro pressionou trigo e milho para cima e arrastou a soja na bolsa de Chicago.
Para produtores de Mato Grosso do Sul — um dos maiores estados exportadores do grão — o cenário traduz uma tensão conhecida: os preços até melhoram, mas quem ainda segura estoque prefere esperar mais. O resultado é um mercado com liquidez limitada, onde comprador e vendedor ainda não chegaram ao ponto de equilíbrio.
A Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT) fechou em alta para os contratos futuros de soja. O gatilho foi a confirmação, pelos exportadores privados americanos, da venda de 244 mil toneladas do grão para a China — sinal concreto de que o apetite chinês segue robusto. A estatal Sinograin, responsável por estoques estratégicos de Pequim, também movimentou o mercado ao vender cerca de 89% das 516 mil toneladas de soja importada ofertadas em seu terceiro leilão recente, segundo traders ouvidos pela Reuters. A liquidação do estoque, segundo analistas, serve para abrir espaço nos armazéns antes da chegada de cargas americanas.
No Brasil, os reflexos chegaram tanto nas praças do interior quanto nos portos. As indicações portuárias melhoraram especialmente para pagamentos com prazo mais longo. Para embarques em agosto, contudo, a janela já está estreita — o que reduz as oportunidades de negócio com entrega imediata. O dólar também contribuiu para o ajuste de posições, segundo analistas do setor.
O relatório de agosto do USDA projetou a safra norte-americana de soja em 4,519 bilhões de bushels para a temporada 2026/27 — o equivalente a 123 milhões de toneladas, número acima das estimativas que o mercado carregava (4,469 bilhões de bushels, ou 121,6 milhões de toneladas). A produtividade caiu levemente, de 53 para 52,7 bushels por acre. Os estoques finais americanos foram projetados em 320 milhões de bushels (8,71 milhões de toneladas), também acima do esperado pelo mercado, que apostava em 302 milhões de bushels.
No cenário global, o USDA estimou a produção mundial de soja em 442,25 milhões de toneladas para 2026/27 — alta frente às 441,7 milhões previstas em julho. Os estoques finais mundiais ficaram em 124,21 milhões de toneladas, abaixo da projeção do mercado de 124,4 milhões. Num primeiro olhar, números maiores de produção e estoques seriam baixistas. Mas o mercado preferiu ler outro dado: a demanda chinesa concreta e os ganhos de trigo e milho puxados pelo conflito no Mar Negro compensaram o viés negativo do relatório.
"O mercado tem um quadro de disputa no mercado interno, com a indústria buscando ofertas de soja, enquanto os produtores que ainda possuem produto seguem cadenciando as vendas", afirmou Rafael Silveira, analista da Safras & Mercado. Para ele, o basis doméstico — diferencial entre o preço local e a referência de Chicago — permanece firme, com boas indicações no mercado CIF fábrica. Ainda assim, os vendedores preferem aguardar patamares mais atrativos antes de fechar novos contratos, o que limita o volume total de negócios.
Em Mato Grosso do Sul, esse comportamento é especialmente relevante para os municípios do Cone Sul e da região de Dourados, onde a soja concentra boa parte da renda agrícola. Com o câmbio colaborando e a demanda chinesa dando sustentação ao mercado internacional, a perspectiva para os próximos pregões é de estabilidade nos preços — mas sem garantia de que o volume de vendas vai acelerar enquanto os produtores mantiverem a postura de esperar o melhor momento. Os olhos do setor agora se voltam para os próximos dados de clima nos EUA e para eventuais novos leilões da Sinograin, que podem definir o ritmo do mercado nas semanas seguintes.
Fontes: USDA, SAFRAS & MERCADO, REUTERS