Consultorias elevam déficit global de açúcar para até 3,3 mi de toneladas

Queda na produção do Centro-Sul brasileiro, seca europeia e monções fracas na Índia pressionam oferta mundial da commodity na temporada 2026/27.

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Consultorias elevam déficit global de açúcar para até 3,3 mi de toneladas
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O mercado internacional de açúcar recuou nas bolsas de Nova York e Londres nesta quarta-feira (13 de agosto), em uma sessão de realização de lucros depois que os contratos futuros tocaram os maiores patamares em cerca de 15 meses. O movimento de queda, no entanto, não apaga o cenário estrutural que vem sustentando as cotações: múltiplas consultorias globais revisaram drasticamente suas projeções para a temporada 2026/27, e o que antes era esperança de superávit virou previsão de déficit expressivo.

A mudança de tom das grandes casas de análise ocorre em ritmo acelerado. Em poucos meses, a narrativa migrou de folga na oferta para escassez — e os fundamentos por trás disso envolvem Brasil, Europa e Índia ao mesmo tempo, o que torna o cenário particularmente delicado para o agronegócio sul-mato-grossense, que abastece usinas do Centro-Sul e acompanha os preços internacionais de perto.

De superávit a déficit: como as projeções mudaram em meses

A velocidade das revisões chama atenção. A Covrig Analytics saiu de uma estimativa de superávit de 100 mil toneladas para um déficit de 300 mil toneladas. A Green Pool Commodity Specialists foi ainda mais longe: ampliou sua previsão de déficit de 1,76 milhão de toneladas para 3,3 milhões de toneladas. A StoneX triplicou sua estimativa, de 550 mil toneladas em maio para 1,7 milhão de toneladas agora. Já a Czarnikow reverteu por completo sua projeção, passando de um superávit de 1,4 milhão de toneladas para um déficit de 100 mil toneladas.

Um dos fatores que explica essa reviravolta no Brasil é a concorrência do etanol. Com o petróleo em patamares elevados, as usinas do Centro-Sul têm direcionado mais cana para a produção de biocombustível, reduzindo o volume destinado ao açúcar. Os dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) mostram que a fabricação de açúcar no Centro-Sul caiu 26,3% em junho, na comparação anual, totalizando 3,903 milhões de toneladas — um recuo expressivo para o maior produtor e exportador mundial da commodity.

Seca europeia e monções indianas agravam a tensão na oferta

O problema não é só brasileiro. Na União Europeia e no Reino Unido, a combinação de seca prolongada e temperaturas acima do normal deve reduzir a produção de açúcar para 14,98 milhões de toneladas em 2025, de acordo com dados da S&P Global Energy — o menor volume em 11 anos. A estiagem europeia retira do mercado um fornecedor relevante exatamente quando o Brasil também diminui seu ritmo.

A Índia, segundo maior produtor mundial, acrescenta mais uma camada de incerteza. O Departamento Meteorológico indiano projeta chuvas abaixo da média em agosto e setembro, e a precipitação acumulada da temporada de monções até 10 de agosto estava 12% abaixo do normal — uma melhora em relação ao déficit de 42% registrado no fim de junho, mas ainda longe do ideal para garantir uma safra robusta. A previsão acumulada para o período de junho a setembro foi reduzida para 90% da média histórica.

El Niño no radar e impacto para o produtor sul-mato-grossense

Além das condições climáticas já observadas, o mercado começa a precificar o risco de um El Niño mais intenso ao longo da temporada. O fenômeno tende a alterar regimes de chuvas em regiões produtoras estratégicas — incluindo o próprio Centro-Sul do Brasil, mas também Tailândia e Índia —, elevando a probabilidade de períodos secos em lavouras de cana. Para os participantes do mercado, esse é o elemento que transforma incerteza pontual em risco sistêmico para o balanço global.

Para Mato Grosso do Sul, o cenário tem dois lados. De um, os produtores de cana-de-açúcar e as usinas que operam no estado se beneficiam de preços internacionais mais firmes, já que as cotações seguem historicamente elevadas mesmo após a realização de lucros desta quarta. Do outro, qualquer piora climática que afete as lavouras do Centro-Sul — região que abrange parte do estado — pode agravar ainda mais o quadro de oferta apertada e pressionar a rentabilidade do setor ao longo da safra 2026/27. O mercado segue atento, e os fundamentos indicam que a volatilidade ainda não chegou ao fim.

Fontes: UNICA, S&P GLOBAL ENERGY, COVRIG ANALYTICS, GREEN POOL COMMODITY SPECIALISTS, STONEX, CZARNIKOW, DEPARTAMENTO METEOROLÓGICO DA ÍNDIA


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