O mercado internacional do açúcar opera em alta expressiva nesta quarta-feira, 12 de agosto, com contratos renovando máximas em meses nas bolsas de Nova Iorque e Londres — movimento impulsionado por uma combinação de fatores que envolve queda na produção brasileira, seca na Europa e riscos climáticos na Índia, o segundo maior produtor mundial da commodity.
O cenário preocupa especialmente quem acompanha o setor sucroenergético no Brasil. O país é o maior produtor global de açúcar, mas os dados mais recentes da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) revelam uma retração significativa: as usinas do Centro-Sul produziram 3,9 milhões de toneladas em junho, queda de 26,3% em relação ao mesmo mês da safra anterior. É o tipo de número que redesenha projeções mundo afora.
Por volta das 11h desta quarta-feira, o contrato de outubro em Nova Iorque era negociado a 14,96 cents por libra-peso, com alta de 23 pontos. O contrato para março de 2027 avançava 22 pontos, chegando a 17,93 cents. Em Londres, o contrato de outubro alcançou US$ 515,80 por tonelada, com valorização de 450 pontos — e o contrato de dezembro subia 400 pontos, a US$ 514,00.
Esses patamares vêm sendo construídos desde o dia 30 de julho, quando o açúcar registrou mínima em cerca de cinco meses. Desde então, a recuperação tem sido consistente: na véspera, as cotações já haviam atingido a máxima em 10 meses em Nova Iorque e o maior valor em 15 meses em Londres para o açúcar branco — um ciclo de valorização sustentado pela percepção de que a oferta global ficará abaixo do esperado em 2026/27.
As revisões das principais consultorias do setor são o motor que alimenta essa alta. A Covrig Analytics virou o jogo nas suas estimativas: antes projetava superávit de 100 mil toneladas para 2026/27, mas agora trabalha com déficit de 300 mil toneladas. A Green Pool Commodity Specialists foi ainda mais além e praticamente dobrou sua previsão de déficit — de 1,76 milhão de toneladas para 3,3 milhões de toneladas. Já a StoneX saltou de 550 mil para 1,7 milhão de toneladas de déficit esperado.
Na Europa, a situação também contribui para apertar a oferta. A combinação de seca e temperaturas acima do normal deve reduzir a produção conjunta de açúcar da União Europeia e do Reino Unido para 14,98 milhões de toneladas — o menor volume em 11 anos, segundo dados da S&P Global Energy. São perdas que o mercado já precifica nos contratos futuros.
Além de Brasil e Europa, a Índia entra na equação com seus próprios problemas climáticos. Em 31 de julho, o Departamento Meteorológico da Índia alertou que as chuvas de monção esperadas para agosto e setembro devem ficar abaixo do volume normal. O Ministério de Ciências da Terra do país foi mais direto: a temporada deste ano pode ser a mais fraca em 11 anos.
Para Mato Grosso do Sul, que possui um setor sucroenergético relevante — com usinas distribuídas especialmente na região de Dourados, Costa Rica e Naviraí — o cenário de preços mais altos no mercado internacional pode representar uma janela de oportunidade para o escoamento da safra local. O estado figura entre os produtores brasileiros de cana-de-açúcar, e a valorização internacional tende a repercutir nas negociações domésticas ao longo dos próximos meses, a depender da velocidade com que a produção brasileira se recupera nos meses seguintes de safra.
O mercado segue monitorando as condições climáticas na Índia e os dados de moagem do Centro-Sul do Brasil como os principais termômetros para definir se as cotações sustentam o patamar atual ou seguem avançando rumo a novos recordes no segundo semestre.
Fontes: UNICA, S&P GLOBAL ENERGY, COVRIG ANALYTICS, GREEN POOL COMMODITY SPECIALISTS, STONEX, DEPARTAMENTO METEOROLÓGICO DA ÍNDIA