Exportações de grãos ucranianos caem 76% com bloqueio no Mar Negro

Ucrânia enviou proposta de trégua à Rússia para suspender ataques a navios e portos, enquanto embarques de grãos desabam e o mercado global de alimentos entra em alerta.

Por
Exportações de grãos ucranianos caem 76% com bloqueio no Mar Negro
Divulgação

A Ucrânia encaminhou à Rússia, por meio de um intermediário, uma proposta formal para suspender ataques mútuos a embarcações civis e instalações portuárias no Mar Negro — e o resultado prático já chegou antes de qualquer resposta de Moscou: as exportações ucranianas de grãos despencaram 76% em relação ao mesmo período do ano anterior nas primeiras semanas de agosto, segundo dados do setor agrícola.

O pedido de trégua foi transmitido por Kiev via terceiros, e a Ucrânia ainda aguarda retorno, segundo fonte familiarizada com as negociações ouvida pela agência Reuters. A situação representa uma nova fase crítica na guerra econômica travada pelo corredor marítimo, essencial tanto para o abastecimento global de alimentos quanto para a economia ucraniana, já devastada por mais de dois anos de conflito.

Portos paralisados e navios fora de rota

O epicentro da crise está nos portos ao sul de Odessa, principal hub de exportação de grãos da Ucrânia. Em razão de ataques russos a dezenas de navios no final de julho, grandes armadores optaram por suspender as escalas na região, forçando Kiev a buscar alternativas logísticas de emergência. O resultado é um gargalo com poucas saídas: rotas ferroviárias e pelo rio Danúbio existem, mas têm capacidade extremamente limitada para absorver o volume que normalmente sai pelo mar.

Do lado russo, o cenário também acusou impacto. Os três terminais do porto de Novorossiysk, no Mar Negro, foram paralisados na quarta e na quinta-feira após um ataque ucraniano, obrigando Moscou a reduzir suas próprias exportações de grãos. Tanto Rússia quanto Ucrânia se acusam mutuamente de intensificar os ataques às embarcações utilizadas no comércio agrícola — o que cria um ciclo de escalada com consequências globais.

Mercado reage e tensão chega ao preço do trigo

A sensibilidade do mercado ficou evidente na bolsa europeia: o trigo negociado na Euronext oscilou fortemente ao longo da quinta-feira, recuando da máxima de duas semanas logo após a divulgação da proposta ucraniana de cessar-fogo no mar. O movimento mostra que qualquer sinal de desescalada — ou de nova tensão — repercute imediatamente nos preços internacionais de commodities agrícolas.

A Turquia, que já mediou acordos anteriores entre os dois países, voltou ao centro das negociações no domingo, transmitindo às partes sua preocupação com os ataques e pedindo que ambas declarem uma moratória. O país turco foi peça-chave no acordo de exportação firmado em 2022, intermediado também pela ONU, que garantiu o escoamento de grãos ucranianos e evitou uma crise alimentar aguda. Em 2023, a Rússia se recusou a renovar o pacto, e a Ucrânia estabeleceu uma rota alternativa própria — que agora também está sob ameaça.

O que está em jogo para o agronegócio brasileiro e sul-mato-grossense

Mato Grosso do Sul é um dos maiores produtores de soja, milho e carne bovina do país — commodities diretamente afetadas pelo equilíbrio no mercado global de grãos. Quando Ucrânia e Rússia, dois dos maiores exportadores mundiais de trigo e milho, travam o escoamento de suas produções, a pressão sobre preços internacionais cresce e pode abrir janelas de oportunidade para exportadores brasileiros, mas também elevar o custo de insumos como rações e fertilizantes.

O setor agrícola ucraniano alertou que, se o bloqueio de facto nos portos do Mar Negro persistir, as consequências para a economia do país serão severas. Para o mercado global, o risco é a repetição de um cenário já visto em 2022: alta nos preços de alimentos, pressão inflacionária em países importadores e insegurança alimentar em regiões dependentes do trigo e do girassol ucranianos. Produtores e tradings de Mato Grosso do Sul acompanham o desenvolvimento das negociações com atenção, já que a dinâmica do conflito no Mar Negro segue sendo um dos principais fatores de volatilidade nas cotações de grãos ao longo de 2024.

Fontes: REUTERS


Tags »
Notícias Relacionadas »