A região conhecida como Sealba — faixa que corta Sergipe, Alagoas e Bahia — vive uma das piores crises agrícolas dos últimos anos. Com a umidade do solo inferior a 20% e previsão de apenas 30 milímetros de chuva em 15 dias, produtores relatam quebra de produção que já chega a 90% nas lavouras de milho, enquanto especialistas alertam que o quadro deve se agravar até o fim do ano.
O cenário é resultado da combinação entre o El Niño e temperaturas acima da média histórica para o período. Diferentemente de anos anteriores, quando a estiagem costumava abrir brechas de alívio no calendário agrícola, desta vez as projeções meteorológicas indicam persistência da seca pelos próximos meses — sem janelas relevantes de precipitação no horizonte.
Na Fazenda Salgadinho, em Sergipe, o produtor Gleyon acompanha de perto o colapso de suas roças. As plantas de milho travaram o crescimento antes de completar um metro de altura — em condições normais, a cultura alcança o dobro disso — e as espigas simplesmente não se formaram. "A situação é crítica", resumiu o agricultor, calculando que a perda sobre o que havia planejado colher ultrapassa nove décimos da produção.
O estrago não é isolado. Toda a faixa do Sealba registra lavouras comprometidas em estágio semelhante, com plantas que interromperam o ciclo reprodutivo por falta de água disponível no solo. Especialistas explicam que, quando a umidade cai abaixo de determinado patamar durante o florescimento, o dano é irreversível — nem chuvas tardias recuperam a espiga já perdida.
Os modelos climáticos consultados por institutos meteorológicos apontam que as precipitações devem ficar muito abaixo da média histórica nos próximos meses na região. O volume projetado — menos de 30 mm em quinze dias — é insuficiente sequer para estabilizar a umidade do solo, quem dirá reverter os danos já acumulados nas lavouras.
Com o El Niño mantendo sua influência sobre o regime de chuvas no Nordeste, a recomendação que começa a circular entre técnicos da extensão rural é a substituição gradual de culturas sensíveis à falta de hídrica por variedades mais resistentes — sorgo, por exemplo, ou feijão-caupi, adaptados historicamente ao semiárido. A reconversão, porém, exige planejamento e capital que boa parte dos pequenos produtores da região não tem disponível no curto prazo.
Mato Grosso do Sul é o segundo maior produtor de milho do Centro-Oeste e um dos principais fornecedores do grão para o mercado interno. Uma quebra de 90% em uma região consumidora como o Nordeste não significa, necessariamente, menos demanda — significa demanda concentrada em outros fornecedores. Na prática, o estado pode se beneficiar de preços mais firmes para escoar a própria safra, mas também sente o reflexo no custo da ração animal, já que a escassez regional pressiona as cotações nacionais.
Produtores sul-mato-grossenses que acompanham o mercado de milho já observam, nas últimas semanas, pressão de alta nas cotações da saca influenciada justamente pela deterioração do quadro no Nordeste. O movimento reforça a importância de MS como celeiro estratégico do país — e acende o alerta para que as condições climáticas locais sejam monitoradas com a mesma atenção, sobretudo em um ano de El Niño ativo.
Para os produtores do Sealba, a expectativa agora é de que programas emergenciais de crédito rural e acesso ao Garantia-Safra sejam acionados pelo governo federal antes que a crise se converta em êxodo rural definitivo nas comunidades agrícolas da região.
Fontes: CANAL RURAL, INMET