Nas fazendas de gado leiteiro, um manejo costuma causar estranhamento em quem visita pela primeira vez: minutos depois do parto, o bezerro é retirado da vaca e levado para uma baia individual. A cena parece dura, mas segundo o zootecnista Guilherme Marquez, especialista em gado de leite, é justamente o oposto: trata-se do protocolo mais seguro para garantir a sobrevivência do animal recém-nascido.
A explicação foi dada em resposta a uma dúvida do produtor Fernando Fonseca, de Buritis, em Minas Gerais, levantada no programa Giro do Boi. A pergunta é comum entre quem começa a lidar com pecuária leiteira: se a vaca é a mãe biológica, por que não deixar o bezerro junto dela nos primeiros dias de vida? A resposta tem a ver com décadas de melhoramento genético que priorizou produção de leite em detrimento do instinto materno.
Marquez explica que raças de alta aptidão leiteira, como Holandesa e Jersey, foram selecionadas geneticamente ao longo de gerações para maximizar a produção de leite, não a capacidade de cuidar da cria. Como consequência, essas matrizes apresentam menor habilidade materna se comparadas a raças de corte, mais rústicas e adaptadas ao manejo extensivo.
Deixar o bezerro solto no pasto ao lado da mãe, nesse cenário, aumenta o risco de exposição a intempéries, pisoteio acidental pela própria vaca, contaminação do umbigo recém-cortado e falhas na ingestão do colostro, o primeiro leite produzido após o parto e essencial para a imunidade do animal nas primeiras horas de vida.
A separação imediata é o que viabiliza, segundo o zootecnista, a execução precisa de um protocolo de colostragem e aleitamento em ambiente limpo e controlado, com acompanhamento individualizado de cada animal. Só depois desse período crítico as bezerras são desmamadas e reunidas em piquetes sociais, já fortalecidas para o convívio em grupo.
Esse cuidado inicial, mais do que uma questão de produtividade, é apontado como fator direto de redução da mortalidade no bezerreiro, fase considerada a mais delicada da criação leiteira. Propriedades que investem nesse manejo transformam o lote de fêmeas em futuras matrizes de alta produtividade, com menos perdas no primeiro mês de vida.
Mato Grosso do Sul integra a bacia leiteira do Centro-Oeste, com produção concentrada em municípios como Nova Andradina e Rio Verde de Mato Grosso, onde pequenos e médios produtores adotam manejo semelhante ao descrito pelo zootecnista para reduzir perdas no início da criação.
Fontes: CANAL RURAL; GIRO DO BOI