O petróleo fechou a semana com alta superior a US$ 1 por barril nesta sexta-feira, pressionado por ataques a navios petroleiros no Estreito de Ormuz e pelo impasse nas negociações entre Washington e Teerã. O contrato futuro do Brent encerrou o pregão a US$ 88,52, acumulando ganho semanal de 6%, enquanto o WTI — referência norte-americana — subiu para US$ 82,40, com valorização semanal de 5,4%.
O movimento reflete uma escalada rara no nível de tensão sobre a maior rota de escoamento de petróleo do planeta. O Estreito de Ormuz, corredor marítimo entre o Irã e a Península Arábica, responde por cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural liquefeito que circula no mundo. Com o tráfego marítimo local já abaixo da média mensal, analistas alertam que os desdobramentos das próximas semanas poderão redefinir o patamar de preços globalmente — e afetar diretamente o que os brasileiros pagam nos combustíveis.
Na quinta-feira, dois petroleiros da Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC), estatal dos Emirados Árabes Unidos, foram atacados enquanto transitavam pelo estreito. A agência de notícias estatal dos Emirados, WAM, noticiou os incidentes e o governo do país os atribuiu ao Irã, condenando formalmente as agressões. "Essa foi a notícia que impulsionou os preços: petroleiros atacados", disse Phil Flynn, analista sênior do Price Futures Group.
O contexto é de conflito aberto: os Estados Unidos e Israel iniciaram ataques ao Irã no final de fevereiro, e desde então o tráfego no estreito opera em compressão. Na quinta-feira, o governo americano declarou que pode manter um bloqueio naval ao Irã por prazo indeterminado. "Fiquem atentos para mais anúncios na próxima semana, pois vamos aplicar medidas como nunca se viu na história do isolamento econômico de um país", afirmou Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, em entrevista à emissora Newsmax.
Andrew Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, foi direto ao ponto ao explicar a distância entre o barril e o que se paga no posto de combustíveis. "Os preços do petróleo podem estar em US$ 80 o barril, mas os preços do diesel estão em US$ 180 o barril e os da gasolina em US$ 130 o barril — e é isso que está afetando o consumidor", disse ele.
Lipow foi além e traçou um cenário de ruptura: se o tráfego no Estreito de Ormuz continuar restrito, um "dia de ajuste de contas" pode chegar rapidamente. A frase resume o risco central: o mercado ainda não precificou completamente uma interrupção prolongada nessa rota. Nos pregões da semana, já havia sinal disso — a alta acumulada foi consistente, não pontual.
O Brasil importa petróleo refinado e derivados, e embora seja um produtor relevante via Petrobras, os preços domésticos de combustíveis seguem tendências internacionais. Para Mato Grosso do Sul, estado com um dos maiores rebanhos bovinos do país e forte dependência do diesel no transporte de grãos e no agronegócio, qualquer pressão de alta nos derivados tem efeito direto no custo de produção e no frete. A soja e a carne produzidas no MS chegam a Corumbá, Santos e Paranaguá majoritariamente por caminhões — e o diesel é o principal insumo logístico.
Se o conflito no Oriente Médio se aprofundar nas próximas semanas, como sugerem os desdobramentos diplomáticos, os efeitos sobre a inflação de alimentos e combustíveis no Brasil tendem a aparecer antes mesmo de qualquer reajuste oficial nas refinarias. O mercado já começou a antecipar esse risco — e os números desta semana são o sinal mais claro disso.
Fontes: REUTERS