O dólar encerrou a sessão desta sexta-feira, 14 de agosto, cotado a R$ 5,2213, o patamar mais elevado desde o final de março, sustentado por uma combinação que preocupa economistas: saída expressiva de capital estrangeiro, tensão fiscal crescente e incertezas políticas com as eleições presidenciais se aproximando. Foi a quinta alta consecutiva da moeda norte-americana frente ao real — a sequência mais longa desde dezembro do ano passado — e o acumulado da semana chegou a 2,7%.
O movimento contrasta com o que aconteceu nos mercados globais no mesmo pregão. Lá fora, o dólar recuou diante de dados americanos que indicaram queda inesperada nas vendas do varejo dos Estados Unidos em julho, reforçando a expectativa de que o Federal Reserve não elevará os juros em setembro. Enquanto o mundo apostava na fraqueza da moeda americana, o Brasil seguiu na direção contrária — sinal de que os fatores domésticos pesaram mais do que o cenário externo.
O principal motor da pressão sobre o real tem endereço certo: a retirada de recursos por parte de grandes fundos internacionais. Dados da B3 revelam que, entre os dias 1º e 12 de agosto, o saldo líquido de capital estrangeiro na bolsa brasileira ficou negativo em R$ 13,56 bilhões — uma virada brusca após julho ter registrado entrada positiva. Esse movimento reflete a estratégia de redução de exposição ao Brasil adotada por gestores globais, típica de períodos pré-eleitorais em mercados emergentes.
O Ibovespa acompanhou a deterioração, fechando em queda, enquanto os juros futuros subiram de forma generalizada. O contrato de dólar futuro de primeiro vencimento na B3 chegou a R$ 5,242, alta de 0,78%, confirmando que o mercado precificou um cenário de mais pressão no curtíssimo prazo. No acumulado de 2025, porém, o dólar ainda acumula queda de 4,88% frente ao real — o que mostra que a valorização recente não apaga um ano relativamente favorável para a moeda brasileira.
Por trás dos números, há duas narrativas que alimentam a aversão ao risco no mercado doméstico. A primeira é o quadro fiscal: as perspectivas para as contas públicas seguem sendo avaliadas com ceticismo por analistas, que acompanham de perto a trajetória da dívida e o cumprimento do arcabouço fiscal. A segunda é política: com a eleição presidencial de outubro se aproximando, investidores aguardavam nesta sexta-feira a divulgação da primeira pesquisa Quaest encomendada pela TV Globo, prevista para o fim do dia, como um novo termômetro do cenário eleitoral.
Em momentos assim, o capital estrangeiro tende a buscar destinos considerados mais seguros, e o Brasil — apesar dos fundamentos que sustentaram o real no início do ano — perde atratividade relativa. O efeito prático é a valorização do dólar, que encarece importações e pressiona setores que dependem de insumos negociados em moeda estrangeira.
Para o leitor de Mato Grosso do Sul, a oscilação cambial não é abstrata. O estado é um dos maiores exportadores de commodities do país — soja, milho, carne bovina e celulose saem daqui em grande volume com preços referenciados em dólar. A alta da moeda americana, em tese, beneficia produtores rurais e tradings que recebem em dólares, mas o efeito se inverte quando se trata de insumos agrícolas, fertilizantes e maquinário importado, cujo custo sobe junto.
Na fronteira com o Paraguai, o câmbio também importa: um dólar mais caro torna as compras em Ciudad del Este relativamente mais caras para o brasileiro que converte reais. Quem planejava uma viagem de compras a Ponta Porã ou Foz do Iguaçu pode encontrar preços menos vantajosos do que nas semanas anteriores. O cenário exige atenção nas próximas semanas, especialmente se as incertezas eleitorais e fiscais continuarem ditando o humor do mercado financeiro.
No Oriente Médio, outro fator agrava o ambiente global: os Estados Unidos sinalizaram que podem manter bloqueio naval contra o Irã indefinidamente, enquanto ataques a navios no Estreito de Ormuz praticamente paralisaram o tráfego na região — o que impulsionou os preços do petróleo Brent e mantém o risco geopolítico no radar dos investidores.
Fontes: REUTERS, B3