O dólar encerrou a quinta-feira (13) cotado a R$ 5,1896, registrando a quarta alta consecutiva frente ao real e acumulando uma valorização de 2,07% na semana. Apesar do movimento recente, analistas apontam que o principal motor da pressão é doméstico: a combinação de incertezas eleitorais e uma temporada de balanços corporativos com resultados abaixo das expectativas vem afastando investidores de ativos de risco no Brasil.
O contexto global, desta vez, não foi o vilão. Dados divulgados nesta quinta pelo governo dos Estados Unidos mostraram que os preços ao produtor americano ficaram estáveis em julho — abaixo da previsão de analistas, que esperavam alta de 0,2%. O número reforçou a percepção de que o Federal Reserve deve segurar o gatilho em setembro e não elevar os juros básicos dos EUA, o que normalmente favoreceria moedas emergentes como o real. Mesmo assim, o dólar avançou aqui.
A explicação está nos fundamentos internos. "O dólar sobe aqui no Brasil hoje por questões mais domésticas do que propriamente uma questão da moeda americana em relação ao restante do mundo", afirmou Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos. Segundo ele, o movimento reflete aversão ao risco ligada ao cenário eleitoral e a uma rodada de resultados corporativos que decepcionou o mercado.
O Ibovespa acumulou nesta sessão sua oitava queda consecutiva, aprofundando um ciclo de saída de capital da bolsa brasileira. Quando os grandes investidores vendem ações e buscam proteção no dólar, a demanda pela moeda americana cresce — e o câmbio sobe independentemente do que aconteça em Washington. O contrato futuro de dólar fechou em leve recuo de 0,05%, a R$ 5,2125, sinalizando que o mercado segue cauteloso, mas sem grandes apostas direcionais.
Durante a manhã, o IBGE divulgou que as vendas do varejo brasileiro cresceram 0,5% em junho, superando as expectativas e acelerando em relação ao mês anterior. Em tese, um dado positivo para a economia e para o real — mas o mercado financeiro passou por cima da notícia sem grande entusiasmo. A temporada de balanços corporativos e o clima político pesaram mais.
No cenário internacional, o dólar operou praticamente estável contra outras moedas emergentes: o peso chileno caiu 0,09%, enquanto o peso mexicano subiu 0,12% — variações que indicam que o movimento do real foi mais influenciado por fatores locais do que por uma tendência global.
Para o agronegócio sul-mato-grossense, que responde por fatia relevante das exportações do estado, a alta do dólar na semana tem dois lados. Produtores de soja, milho e carne bovina que fecham contratos em moeda americana se beneficiam da valorização cambial — cada real a mais no dólar significa receita maior em reais na ponta do produtor. Por outro lado, insumos importados, como fertilizantes e defensivos, ficam mais caros quando o câmbio pressiona.
Na fronteira com o Paraguai, o câmbio também mexe com o fluxo de compras. Com o dólar mais alto, produtos paraguaios cotados em guaranis ficam relativamente mais caros para o brasileiro que converte reais — um fator que pode reduzir o apelo das compras em Ciudad del Este e Ponta Porã para consumidores de Mato Grosso do Sul. O movimento do câmbio nas próximas semanas dependerá, em grande medida, de como o cenário eleitoral brasileiro evoluir e se os balanços corporativos entregarem resultados mais sólidos ao mercado.
No acumulado de 2025, apesar da volatilidade recente, o dólar ainda acumula queda de 5,45% frente ao real — sinal de que o real permanece relativamente forte no ano, mesmo com os solavancos das últimas semanas.
Fontes: REUTERS, IBGE, B3