Mesmo sob pressão do mercado internacional, Mato Grosso do Sul fechou o primeiro trimestre de 2026 com US$ 2,51 bilhões em exportações e superávit comercial de US$ 1,76 bilhão — resultado que confirma o peso do Estado no comércio exterior brasileiro, sustentado sobretudo pela força do agronegócio. O volume embarcado avançou 11,83%, chegando a 6,82 milhões de toneladas, ainda que o valor em dólares tenha recuado levemente em 1,66% frente ao mesmo período do ano passado.
O desempenho reflete uma equação que se tornou familiar para a economia sul-mato-grossense: produção em alta, mas preços pressionados por fatores externos — oferta global elevada, instabilidade geopolítica e volatilidade cambial. Os dados constam na Carta de Conjuntura do Setor Externo, documento elaborado pela Assessoria Especial de Economia e Estatística da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação).
Uma das principais mudanças do trimestre foi a troca de posição entre os dois principais produtos exportados pelo Estado. A soja voltou a liderar a pauta, com 28,32% de participação, ultrapassando a celulose, que ficou com 27,41%. A carne bovina aparece em terceiro lugar, com 19,38% do total embarcado. Farelo de soja, carnes de aves e milho completam os destaques da lista.
A agropecuária foi o único setor com crescimento simultâneo em preços (+11,11%) e volume (+11,41%) no período. A indústria de transformação, por outro lado, registrou queda tanto no valor quanto na quantidade exportada — -3,0% e -2,68%, respectivamente. Já a indústria extrativa apresentou dinâmica oposta: preços desabaram 45,29%, mas o volume cresceu expressivos 42,36%.
A China segue como principal destino dos produtos sul-mato-grossenses, absorvendo 44,84% do total exportado. Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar, com 8,58%, seguidos por Países Baixos (4,35%) e Itália (3,0%). Segundo a análise da Semadesc, houve aumento relativo da participação americana no trimestre em comparação ao mesmo intervalo de 2025 — movimento que pode estar relacionado ao reposicionamento de compradores diante das tensões comerciais globais.
O escoamento da produção continua dependente dos portos do Sul e Sudeste. O Porto de Paranaguá responde por 40,83% das saídas, seguido pelo Porto de Santos com 38,27% e São Francisco do Sul com 9,37%. Entre os municípios exportadores, Três Lagoas lidera com 18,94% do total estadual, puxado principalmente pela celulose. Ribas do Rio Pardo aparece com 12,01%, seguida por Dourados (9,87%) e Campo Grande (7,59%).
O secretário Artur Falcette, titular da Semadesc, reconhece que o contexto global impõe limites ao crescimento do faturamento exportado, mesmo quando o volume físico aumenta. "O resultado reflete um cenário internacional de pressão sobre preços de commodities, associado à elevada oferta global e à instabilidade geopolítica, que tem limitado o crescimento do valor exportado, apesar do aumento do volume embarcado", avaliou o secretário.
Do lado das importações, o gás natural voltou a ocupar o topo da lista, com 24,21% do total de US$ 751,58 milhões adquiridos pelo Estado no trimestre — crescimento de 10,10% na comparação anual. Caldeiras e geradores de vapor (16,74%) e álcoois e derivados (9,65%) completam os principais itens importados. O dólar médio em março de 2026 foi cotado a R$ 5,23, com leve alta de 0,59% sobre fevereiro, mas 8,96% abaixo do registrado em março do ano anterior — variação que afeta diretamente a conversão das receitas em reais para os exportadores do Estado.
Com o campo produzindo em volumes recordes e a infraestrutura logística ainda como gargalo histórico, o desafio de Mato Grosso do Sul para os próximos trimestres será converter tonelagem crescente em receita de igual proporção — tarefa que depende tanto da diplomacia comercial quanto da estabilidade nos mercados globais de commodities.
Fontes: SEMADESC