O mercado do boi gordo atravessa abril de 2026 com uma equação desafiadora para os frigoríficos: menos animais disponíveis, preços sustentados em patamar elevado e escalas de abate cada vez mais curtas. Em Mato Grosso do Sul, a arroba foi cotada a R$ 359,66, um dos valores mais competitivos entre os principais estados produtores do país, reflexo direto da pressão causada pela baixa disponibilidade de gado terminado nas propriedades.
O cenário não é exclusivo do estado. Em São Paulo, a referência média chegou a R$ 366,75 na modalidade a prazo — o teto nacional entre as praças monitoradas. Goiás registrou R$ 351,43 e Minas Gerais, R$ 352,65. Mato Grosso ficou em R$ 363,04. A convergência dos indicadores aponta para um mercado físico firme, com negócios pontuais sendo fechados acima da média de referência em diversas regiões.
Com menos animais saindo das fazendas para as plataformas de abate, as indústrias frigoríficas começam a rever seu planejamento operacional. A redução no ritmo de produção já é observada em diferentes unidades e, segundo informações do setor, algumas plantas chegam a estudar a concessão de férias coletivas como alternativa para atravessar o período de menor disponibilidade sem comprometer a estrutura de custos fixos.
Essa dinâmica é típica do chamado entressafra do boi gordo, quando o intervalo entre os ciclos de engorda faz o número de animais aptos diminuir antes que uma nova leva chegue ao peso ideal. O problema é que, desta vez, a combinação com uma demanda aquecida — impulsionada, em parte, pela proximidade do pagamento de salários, que estimula reposição entre atacado e varejo — torna o ajuste mais sensível para toda a cadeia.
No campo das exportações, o elemento que mais preocupa analistas é o ritmo de utilização da cota de importação da China. "O mercado ainda está atento à progressão da cota chinesa como elemento-chave para a atual temporada — em caso de rápido esgotamento, haverá maior dificuldade durante o terceiro trimestre", alertou Fernando Henrique Iglesias, analista da Consultoria Safras & Mercado. O cenário demanda atenção especialmente dos exportadores sul-mato-grossenses, que têm no mercado asiático um dos principais destinos da proteína bovina produzida no estado.
Por outro lado, Iglesias aponta que o principal freio para altas mais expressivas da arroba segue sendo o comportamento das proteínas concorrentes. A carne de frango, em especial, mantém preços deprimidos no início da semana, o que limita o espaço para repasses mais agressivos no varejo e contém o apetite do consumidor pela proteína bovina em alguns segmentos de menor renda.
Mato Grosso do Sul ocupa uma posição estratégica nesse tabuleiro. O estado é um dos maiores produtores e exportadores de carne bovina do Brasil, com um rebanho que ultrapassa 21 milhões de cabeças e frigoríficos habilitados para exportação a mercados exigentes como União Europeia e Ásia. A valorização da arroba beneficia o produtor rural que tem animais prontos, mas pressiona quem ainda precisa fechar contratos de reposição para os próximos meses.
O câmbio, por ora, não complica o quadro. O dólar comercial encerrou a sessão desta terça-feira com alta marginal de 0,14%, cotado a R$ 5,1545 para venda — patamar que favorece a competitividade das exportações brasileiras sem acender alarmes inflacionários internos. A combinação de câmbio estável, oferta restrita e demanda firme deve manter o mercado do boi gordo em MS pressionado para cima ao menos enquanto durar o período de menor disponibilidade de animais terminados nas pastagens.
Fontes: SAFRAS & MERCADO, CANAL RURAL