Uma das celebrações mais singulares da Semana Santa em Campo Grande completa três décadas de história dentro do Hospital São Julião. A Via-sacra do Doente — encenação que aproxima a trajetória de sofrimento de Jesus Cristo da experiência vivida por pacientes em tratamento — voltou a reunir voluntários, colaboradores e o público nesta Sexta-feira da Paixão, com 57 participantes entre adultos e crianças percorrendo as 14 estações do hospital.
A origem da tradição remonta a um texto encontrado após a morte do poeta Lino Villachá, que conviveu com a hanseníase e passou mais de 40 anos internado no Hospital São Julião, vindo a falecer em 1994. O poema, descoberto postumamente, estabelece um paralelo poderoso entre os últimos passos de Jesus rumo à crucificação e o cotidiano de quem enfrenta a doença entre quatro paredes. Dois anos depois da descoberta, em 1996, a primeira encenação ganhou vida — ainda no improviso, com figurinos artesanais feitos de papelão pintado à mão. Naquela estreia, 80% dos figurantes eram os próprios pacientes do hospital, que emprestavam não apenas o corpo, mas a experiência real do sofrimento para dar sentido à encenação.
Bruno Madalena, coordenador da peça e funcionário do Hospital São Julião, acompanha a Via-sacra desde a primeira edição e carrega o peso afetivo de manter o legado de Lino Villachá presente a cada ano. "Sinto alegria, orgulho e um pouco velho, mas tem que continuar. O que me toca muito é a emoção nos colaboradores e no público", relata. Com o passar dos anos, o perfil dos participantes mudou: hoje a encenação é protagonizada por voluntários e colaboradores, embora o espírito de acolhimento ao doente permaneça no centro da iniciativa. A costureira voluntária Delcira Coimbra da Silva Damasceno, presente desde a estreia, lidera a confecção dos figurinos — trabalho que começa em janeiro de cada ano. "No começo era bem simples, a gente não tinha preparação, trabalhava com o que tinha", lembra ela. O voluntário Alcebiades Alves de Oliveira interpreta Pôncio Pilatos há mais de 20 anos a pedido da irmã Silva. Para ele, a participação vai além do teatro: "É muito gratificante, é um momento de rezar e pedir perdão". Já a jovem Mariana Lopes da Silva, de 26 anos, participou pela primeira vez justamente no dia do seu aniversário. "Estar aqui com Deus nesse momento, nessa caminhada, é muito importante", disse ela.
O percurso da encenação passa por todas as 14 estações distribuídas pelo hospital, com duração inferior a 1 hora. Em cada parada, os participantes encenam um momento da Paixão de Cristo, reinterpretado à luz da experiência do adoecimento. A Via-sacra do Doente é mais do que uma cerimônia religiosa: é um ato de memória coletiva que preserva a voz de um paciente que transformou sua dor em poesia. Em um estado como Mato Grosso do Sul, onde o Hospital São Julião carrega décadas de história no cuidado a pessoas com hanseníase e outras doenças, a tradição representa também um símbolo de dignidade — a ideia de que quem sofre não está à margem da fé, da arte ou da comunidade.
Com três décadas completadas, a Via-sacra do Doente consolida seu lugar no calendário cultural e espiritual de Campo Grande, servindo de exemplo para iniciativas que unem humanização hospitalar, voluntariado e expressão artística — um modelo que poderia inspirar outras instituições de saúde em todo o Centro-Oeste.
Fontes: HOSPITAL SÃO JULIÃO