A confirmação de novos focos de febre aftosa na China, em plena vigência de medidas de salvaguarda sobre a carne bovina importada, acendeu um alerta sanitário no maior mercado consumidor do mundo e reacendeu discussões sobre o futuro das cotas impostas às exportações brasileiras.
O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China confirmou, no fim de março, a ocorrência de dois surtos da doença em rebanhos localizados nas províncias de Xinjiang e Gansu, envolvendo mais de 6 mil bovinos, com 219 animais apresentando sintomas clínicos. As ocorrências foram validadas por laboratório oficial do governo chinês e resultaram na ativação imediata de protocolos de emergência, incluindo abate sanitário, desinfecção e restrições de trânsito animal.
Embora as autoridades chinesas afirmem que os focos estão sob controle, o episódio volta a expor fragilidades sanitárias internas e levanta dúvidas sobre a capacidade do país de manter sua produção de proteína animal estável ao longo do ano.
Impacto direto no comércio global
A febre aftosa é classificada como uma das doenças de maior sensibilidade para o comércio internacional, pois seu registro costuma provocar restrições imediatas à circulação de animais e produtos de origem animal.
Especialistas avaliam que, mesmo sem impacto expressivo no curto prazo, o surto pode afetar a confiança na produção doméstica chinesa e pressionar as autoridades a ampliar as importações.
Atualmente, a China adotou um regime de salvaguardas comerciais, limitando a entrada de carne bovina estrangeira. Para o Brasil, maior fornecedor do país asiático, a cota definida para 2026 é de 1,1 milhão de toneladas, volume inferior ao exportado nos últimos anos.
Ainda assim, o ritmo de embarques segue acelerado. Apenas no primeiro bimestre de 2026, o Brasil já exportou mais de 370 mil toneladas de carne bovina para a China, o equivalente a 33% da cota anual, segundo dados do comércio exterior compilados por entidades do setor.
Setor brasileiro vê cenário como “sinal amarelo” para Pequim
Analistas do mercado agropecuário avaliam que a confirmação da doença coloca a China em uma posição delicada. Caso os focos de aftosa se ampliem ou atinjam outras regiões produtoras, o país pode ser obrigado a rever suas políticas de importação, seja flexibilizando as cotas, seja acelerando compras externas para garantir o abastecimento interno.
Consultorias especializadas destacam que o episódio funciona como um “sinal verde estrutural” para o Brasil, ainda que não provoque mudanças imediatas. A expectativa é de que eventuais ajustes ocorram no segundo semestre, período em que historicamente as importações chinesas de carne bovina se intensificam.