O governo federal revelou nesta terça-feira, 1º de julho, um conjunto de medidas preventivas para proteger Mato Grosso do Sul dos impactos do El Niño previsto para 2026 e 2027. As ações foram apresentadas durante o Diálogo Regional El Niño, realizado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande, e incluem 18 mil cestas básicas já destinadas ao estado — das quais 6 mil foram entregues diretamente a aldeias indígenas — e a reserva de 14 mil toneladas de milho nos estoques da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) para socorrer pequenos criadores de animais em períodos de estiagem.
O encontro reuniu ministros, representantes de organizações da sociedade civil e movimentos sociais para discutir como o país — e especialmente Mato Grosso do Sul — pode se preparar antes que as secas, as queimadas e as temperaturas extremas associadas ao fenômeno climático comprometam rebanhos, lavouras e o abastecimento de alimentos. A escolha do estado como sede do diálogo não é casual: MS é um dos territórios mais vulneráveis ao fenômeno, com histórico de secas severas no Pantanal e no Cone Sul.
As 14 mil toneladas de milho armazenadas pela Conab têm destino definido: pequenos criadores de animais que enfrentam dificuldade para manter os rebanhos quando a estiagem reduz a oferta de forragem e encarece o insumo no mercado. O estoque poderá atender produtores de Mato Grosso do Sul e de outras regiões do país, conforme a demanda que se desenvolver ao longo do fenômeno climático.
O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, visitou uma unidade da Conab antes do evento e ressaltou o caráter antecipatório da medida. "Vem El Niño, atinge, a gente já está preparado para poder garantir a condição de atendimento", declarou. Além do estoque de milho, ele reforçou que Mato Grosso do Sul tem 1,4 milhão de pessoas atendidas por programas sociais do governo federal e deverá receber R$ 3,6 bilhões em políticas sociais somente neste ano — uma rede de proteção que, segundo o ministro, precisa estar afinada com os riscos climáticos que se aproximam.
O El Niño não traz um único tipo de risco. Wellington Dias alertou que, enquanto algumas regiões do país podem sofrer com chuvas intensas e enchentes, Mato Grosso do Sul tende a enfrentar o cenário oposto: irregularidade das precipitações, estiagem prolongada, temperaturas elevadas e baixa umidade — condições que historicamente alimentam focos de incêndio no Pantanal e reduzem a produtividade agropecuária no sul do estado.
A preocupação vai além das lavouras. Períodos de calor extremo e ar seco elevam os índices de internações por problemas respiratórios e cardiovasculares, sobrecarregando o sistema de saúde público. O governo, segundo o ministro, prevê a mobilização de brigadas contra incêndios e a integração de múltiplos ministérios para resposta rápida. "Queremos integrar todos os esforços, queremos ter esse diálogo com a sociedade, integrando vários ministérios e garantindo que a gente possa estar com Mato Grosso do Sul mais preparado", afirmou Dias.
Wellington Dias também colocou Mato Grosso do Sul no mapa da segurança alimentar nacional. O ministro lembrou o episódio do Rio Grande do Sul, cujas safras de arroz foram afetadas por eventos extremos em anos recentes, pressionando os preços em todo o país. Para evitar repetição do problema, o governo passou a estimular, desde 2023, a produção descentralizada de cereais — e MS, ao lado de Mato Grosso e Goiás, entrou nessa equação.
A lógica é dupla: proteger o produtor rural sul-mato-grossense das perdas causadas pelo clima e, ao mesmo tempo, garantir oferta suficiente para segurar os preços nas gôndolas para o consumidor brasileiro. "De um lado, proteger o pequeno, do outro lado, proteger o consumidor, para não ter elevação no preço", resumiu o ministro. Com o El Niño na porta, a janela para agir preventivamente é agora — e o governo aposta que estoques formados antes da crise valem mais do que socorro emergencial depois que o dano já está feito.
Fontes: MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO E ASSISTÊNCIA SOCIAL, CONAB, UFMS