Pantanal perdeu 84% da savana alagada em 40 anos, e MS sente a seca

Dados do MapBiomas revelam perda de 1 milhão de hectares desde 1985; indígenas e quilombolas de MS já trabalham na restauração das nascentes que alimentam o bioma.

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Pantanal perdeu 84% da savana alagada em 40 anos, e MS sente a seca
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O Pantanal está secando — e os números confirmam o que moradores de Aquidauana e Figueirão, em Mato Grosso do Sul, já percebem no dia a dia. Dados do MapBiomas divulgados em 2025 mostram que a Savana Alagada no bioma perdeu mais de 1 milhão de hectares desde 1985, o que representa 84% de tudo que existia desse tipo de vegetação. A maior planície alagável do mundo enfrenta uma crise hídrica silenciosa alimentada por pressões que vêm de fora de suas fronteiras — e a resposta começa nas comunidades tradicionais de MS.

O Pantanal tem uma característica singular entre os biomas brasileiros: é o que mais recebe influência de ecossistemas vizinhos. Ao todo, cinco biomas fazem fronteira com ele — Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica no lado brasileiro, e Chaco e Bosque Chiquitano na Bolívia e no Paraguai. Isso o torna um gigantesco reservatório de água e biodiversidade, mas também o ponto de chegada de todos os desequilíbrios gerados nesses outros territórios. Quando o Cerrado perde nascentes, o Pantanal resseca. Quando a Amazônia muda seu regime de chuvas, o Pantanal sente primeiro.

Rios que desapareceram na memória de quem nasceu às margens deles

Claudinei Terena, engenheiro florestal e botânico nascido na Terra Indígena Limão Verde, em Aquidauana (MS), descreve o que as estatísticas não capturam com precisão: a perda de paisagens que existiam na infância e hoje não existem mais. "Partes de rios já sumiram, assorearam, lugares que a gente chama de vazantes, alguns canais que são partes que o rio enche e esvazia, hoje não tem mais e os rios estão bem fracos", afirma. A memória de um território fértil — onde se plantava em consórcio com a floresta sem nem ter nome para isso — contrasta com a realidade atual de nascentes soterradas e canais secos.

Foi justamente esse conhecimento acumulado gerações a fio que Claudinei mobilizou para atuar no projeto de restauração de 3,3 hectares de áreas de nascentes dentro da Terra Indígena. A lógica é direta: garantir que a água que alimenta o Pantanal siga fluindo pelo Cerrado antes de chegar à planície. "Um dos exemplos que a gente apresenta dentro da comunidade é o nosso sistema de cultivo. Nós sempre trabalhamos com agrofloresta sem a gente perceber. A gente sempre plantou em consórcio com alguma coisa", explica. O saber tradicional, nesse caso, antecipa em décadas o que a ciência florestal demorou a sistematizar.

Quilombolas de Figueirão coletam sementes para restaurar rios de MS

A comunidade quilombola Santa Tereza, no município de Figueirão (MS), está geograficamente mais distante do Pantanal — mas suas ações chegam até lá pelo mesmo caminho que a água percorre: os rios. Adauto Cândido Pereira, integrante da Rede Flores do Cerrado, coordena um grupo de 31 coletores e coletoras — 16 mulheres e 15 homens — que trabalha com regras precisas de manejo. "A gente coleta para atender outros projetos do Estado. Trabalhamos com regras básicas de coletor, de deixar 30% da semente na árvore. Não chega e pega tudo. Tem cuidado com a árvore, com o meio ambiente", conta Adauto.

As sementes coletadas abastecem projetos de restauração das margens de rios em toda a região, recompondo a vegetação que segura o solo e impede o assoreamento das nascentes. É uma cadeia de cuidado que começa no Cerrado de MS e termina, meses depois, na recuperação de um canal que voltou a receber água no Pantanal. Segundo Cyntia Santos, analista de Conservação do WWF-Brasil, os dois projetos — o de Aquidauana e o de Figueirão — integram uma estratégia maior de restauração das cabeceiras de rios no Cerrado. "É uma consequência de atividades econômicas feitas, muitas vezes, de forma desorientada, sem experiência. Falta apoio técnico, falta incentivo", diz a analista.

O dilema da energia e o futuro do Pantanal sul-mato-grossense

Um dos pontos de tensão identificados pelo WWF-Brasil é a pressão por instalação de pequenas centrais hidrelétricas nos rios que contribuem para o Pantanal. Para Cyntia Santos, esse modelo não é apenas inadequado do ponto de vista ambiental — é economicamente ineficiente para a região. "A energia elétrica ela tem que ser por outras fontes, por exemplo, energia solar, que é uma das mais adequadas para a região, já que pequenas centrais ou hidrelétricas para essa região não trazem recursos econômicos nem para o governo nem para as populações locais", argumenta. A geração solar aparece como alternativa compatível com a vocação turística do Pantanal, que depende diretamente da integridade dos rios e da biodiversidade aquática para funcionar como destino.

O WWF-Brasil atua na região há 22 anos de forma intensificada, dentro de uma trajetória de 30 anos no país. O diretor executivo da organização, Maurício Voivodic, resume a estratégia: "A gente trabalha nesses territórios, nessa pegada com parceiros, sempre visando impactos locais, mas também a aprendizagem, geração de dados e conhecimento que nos permitam influenciar as políticas públicas". Para Mato Grosso do Sul, onde o Pantanal ocupa cerca de 25% do território estadual e sustenta uma economia que vai do turismo à pecuária de alta qualidade, a conta é simples: o que acontece no Cerrado de Figueirão ou nas nascentes de Aquidauana hoje define o volume d'água do Pantanal amanhã. E o relógio já está atrasado.

Fontes: AGÊNCIA BRASIL, WWF-BRASIL, MAPBIOMAS


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