O que era quase invisível nos anos 1990 se tornou uma das maiores transformações do agronegócio brasileiro: mulheres hoje ocupam até 50% dos cargos de liderança e administração em propriedades rurais que adotam programas de gestão profissionalizada — um salto sobre a margem de 2% de participação registrada no início daquela década. Em Mato Grosso do Sul, onde o agro responde por fatia significativa do PIB estadual e a pecuária de corte movimenta dezenas de municípios, essa virada tem nome, endereço e uma ferramenta central: a qualificação contínua.
Os números foram apresentados por Jacqueline Lubaski, consultora especializada em gestão de pessoas e profissionalização rural, durante entrevista ao quadro A Protagonista, do programa Giro do Boi. Para ela, o acesso à formação técnica é o divisor de águas entre a mulher que permanece à margem das decisões da fazenda e aquela que passa a gerenciá-la.
A mudança não aconteceu da noite para o dia. Lubaski traçou uma linha do tempo que começa com uma participação feminina quase simbólica nas atividades agrícolas e pecuárias — abaixo dos 2% nos primeiros anos da década de 1990 — e chega ao cenário atual, onde propriedades que contam com assistência de programas de gestão registram 23% de participação operacional feminina em média, podendo atingir metade dos postos estratégicos nas fazendas mais estruturadas.
A mudança estrutural foi impulsionada pela busca por maior produtividade e automação no campo, que reposicionou o valor da mão de obra qualificada. Nesse cenário, o perfil técnico passou a ser mais valorizado do que a força física, abrindo espaço para que mulheres assumissem funções que vão da gestão financeira à supervisão de sistemas automatizados de monitoramento de rebanhos. Parcerias com entidades como o SENAR têm sido decisivas para acelerar esse processo, oferecendo cursos técnicos acessíveis a trabalhadoras rurais em diferentes regiões do país.
Além do impacto direto na produtividade, a qualificação feminina exerce outro papel estratégico para os produtores rurais: segurar mão de obra qualificada nas fazendas. "Quando a propriedade rural oferece habitação adequada e oportunidades de treinamento para que ambos os cônjuges trabalhem, a rotatividade de colaboradores cai drasticamente", destacou Lubaski. A lógica é simples — se a mulher também tem perspectiva de crescimento profissional no campo, a família tem menos razão para migrar para centros urbanos.
Esse ponto é particularmente relevante para municípios do interior de Mato Grosso do Sul. Em regiões como o Bolsão, o Cone Sul e o Pantanal, onde grandes fazendas convivem com escassez crescente de trabalhadores qualificados, a retenção de famílias inteiras representa ganho operacional direto para o produtor. A consultora ressaltou ainda que a conectividade rural e a automação atraem as gerações mais jovens de volta às propriedades — mas apenas quando o ambiente de trabalho oferece desenvolvimento real, não só salário.
Mato Grosso do Sul está no coração desse fenômeno. O estado abriga um dos maiores rebanhos bovinos do Brasil, com mais de 21 milhões de cabeças, e ocupa posição de destaque na produção de soja, milho e cana-de-açúcar. Com propriedades cada vez mais tecnificadas — especialmente nas regiões de Dourados, Maracaju, São Gabriel do Oeste e Chapadão do Sul —, a demanda por profissionais capacitados em gestão e tecnologia agropecuária só cresce.
Nesse contexto, programas de qualificação voltados às mulheres rurais ganham urgência estratégica. O SENAR-MS já atua com cursos técnicos em diversas cidades do interior, mas especialistas apontam que ainda há espaço para ampliar o alcance dessas formações em propriedades menores e em municípios mais distantes. O protagonismo feminino na gestão das fazendas não é apenas uma questão de equidade — é, crescentemente, uma resposta prática às demandas de um agronegócio que compete em escala global e precisa de talentos onde quer que eles estejam.
Para as produtoras e trabalhadoras rurais de MS, o recado dos dados é direto: a porta de entrada para cargos de liderança no campo passa, antes de tudo, pela formação técnica continuada — e esse caminho está mais acessível do que nunca.
Fontes: SENAR, CANAL RURAL