A China comprou cerca de 700 mil toneladas de soja norte-americana em um único pregão nesta sexta-feira (21 de agosto), sustentando uma semana de preços firmes tanto na Bolsa de Chicago quanto nos portos brasileiros — e os efeitos chegam diretamente ao produtor de Mato Grosso do Sul, um dos maiores estados exportadores de soja do país. No acumulado da semana, a posição novembro do grão valorizou 3,7% no mercado futuro americano, enquanto o dólar comercial recuou 1,5%, fechando a R$ 5,14.
A combinação de forte demanda chinesa e o resultado do Crop Tour da Pro Farmer — pesquisa de campo que estima a produtividade da safra norte-americana — movimentou os mercados nos dois sentidos ao longo da semana. O levantamento de Iowa e Minnesota mostrou que a lavoura dos EUA está acima da média histórica, o que pressionou os preços em alguns momentos, mas as compras chinesas reequilibraram o cenário e impediram quedas mais expressivas.
Os exportadores privados norte-americanos reportaram ao Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) a venda de 712.000 toneladas de soja à China, para entrega na temporada 2026/27. Em separado, outras 720.000 toneladas foram vendidas para destinos não revelados, também para a próxima temporada. No total, as vendas da safra nova somaram cerca de 1,4 milhão de toneladas em um único dia, com a China respondendo por aproximadamente metade do volume.
"O basis permanece bastante fortalecido, mas o spread entre as ofertas dos compradores e as pedidas dos vendedores segue elevado", avaliou Rafael Silveira, analista da Safras & Mercado. Segundo ele, o recuo do dólar foi parcialmente compensado pelos prêmios, o que manteve as cotações no Brasil num patamar considerado satisfatório pelos vendedores, mesmo com o volume comercializado abaixo do esperado ao longo da semana.
O mercado acompanhou com atenção os resultados parciais da Crop Tour da Pro Farmer, que percorre os principais estados produtores dos EUA avaliando a safra em campo. No leste de Iowa, a contagem de vagens chegou a 1.362,93 por área de 3 por 3 pés, acima da média de três anos (1.295,70), mas abaixo das 1.384,38 registradas na safra passada. Em Minnesota, o número foi de 1.257,80 vagens, também superior à média histórica de 1.089,82.
A leitura geral é de uma safra americana boa, mas não excepcional. Isso evitou quedas mais acentuadas nos contratos futuros, que fecharam o dia com alta moderada. O contrato de novembro encerrou a US$ 12,39 por bushel, com elevação de 0,24%, enquanto o farelo subiu 0,61%, a US$ 325,80 por tonelada. O óleo de soja foi a única exceção negativa, com recuo de 2,43%.
Mato Grosso do Sul encerrou a safra 2025/26 como um dos estados com maior ritmo de expansão de área plantada com soja, com destaque para a região de Dourados, Maracaju e Sidrolândia. Para os produtores sul-mato-grossenses, a combinação de basis fortalecido e dólar em queda apresenta um cenário ambíguo: as cotações em reais nos portos seguem em bom nível, mas a diferença entre o que o comprador oferece e o que o vendedor pede ainda trava uma parcela relevante dos negócios.
Com o dólar a R$ 5,14 e os preços em Chicago sustentados pela demanda chinesa, o ambiente é favorável para quem ainda não fixou contratos para a próxima safra. A pressão, no entanto, pode vir de uma produtividade americana acima do esperado nos resultados finais da Crop Tour, divulgados pela Pro Farmer ainda neste fim de semana. Produtores e tradings de Mato Grosso do Sul aguardam os números para ajustar estratégias de comercialização da soja que começa a ser plantada nos próximos meses.
O cenário de curto prazo depende diretamente do ritmo de compras da China — que segue como principal destino da soja brasileira — e do comportamento do câmbio nas próximas semanas, especialmente com o calendário eleitoral americano e as negociações comerciais entre Washington e Pequim ganhando novos capítulos.
Fontes: SAFRAS & MERCADO, USDA, PRO FARMER