O levantamento de campo mais aguardado do calendário agrícola americano acaba de emitir um sinal de alerta: o Pro Farmer Crop Tour 2026, após dois dias de avaliações presenciais em lavouras de milho e soja nos estados de Dakota do Sul, Ohio, Indiana e Nebraska, registrou produtividade consistentemente abaixo de 2025, da média trienal e das projeções oficiais do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). O déficit estimado só de milho, nesses quatro estados, chega a 9,198 milhões de toneladas em relação ao que o governo americano esperava colher.
O resultado importa diretamente para produtores de Mato Grosso do Sul porque os Estados Unidos são o principal concorrente do Brasil nas exportações de milho e soja. Quando a safra americana decepciona, a demanda internacional pelos grãos brasileiros tende a crescer — e as cotações sobem junto. Com o estado entre os maiores produtores nacionais de soja e com a cadeia de milho aquecida para a safrinha, qualquer movimento nas bolsas de Chicago repercute na mesa de negociações de Dourados a Chapadão do Sul.
O estado que apresentou a queda mais expressiva foi Dakota do Sul, onde o rendimento médio do milho recuou 14,4% em relação ao levantamento de 2025, passando de 182,22 sacas por hectare no ano anterior para 155,97 sacas por hectare agora — número que também ficou abaixo da própria estimativa do USDA para o estado. A combinação de calor acima do normal e menor disponibilidade de umidade no Oeste americano explicam grande parte do tombo.
Em Nebraska, a situação foi marcada por profunda desigualdade interna: lavouras irrigadas e de sequeiro apresentaram resultados radicalmente diferentes. A produtividade média ficou em 171,14 sacas por hectare, contra 187,77 sacas em 2025. Na soja, a contagem de vagens caiu 9,5% em relação ao ano anterior, chegando a 1.219,62 vagens por metro quadrado. "Até agora, o sinal do Pro Farmer é claramente mais fraco no milho. Somando Ohio, Dakota do Sul, Indiana e Nebraska, são 23,840 milhões de acres, aproximadamente 27,1% da produção americana projetada pelo USDA. Nesses quatro estados, o USDA projeta 110,111 milhões de toneladas, enquanto, aplicando as produtividades encontradas pelo Pro Farmer às mesmas áreas, chegamos a 100,913 milhões", analisou Ronaldo Fernandes, diretor da Royal Rural. Quando se ponderada a média dos quatro estados avaliados, a produtividade do milho cai de 190,20 para 174,31 sacas por hectare.
Em Indiana, o cenário do milho foi menos catastrófico do que se temia após episódios de chuva extrema, mas ainda preocupa: produtividade média de 191,99 sacas por hectare, queda de 5,3% frente às 202,75 sacas de 2025. Um fator adicional de risco é o atraso na maturação das plantas, que pode comprometer a janela de colheita. Para a soja, algumas lavouras absorveram bem o excesso de umidade, mas áreas de baixada que permaneceram alagadas representam risco real de perda total de produção. A contagem de vagens recuou 4,2%, para 1.318,64 por metro quadrado.
Em Ohio, o milho ficou em 188,50 sacas por hectare — 2,97% abaixo de 2025 e bem aquém das 203,98 sacas projetadas pelo USDA. Na soja, a contagem de vagens chegou a 1.197,3 por metro quadrado, contra 1.287,3 no levantamento anterior. O estado, historicamente mais equilibrado que os do Oeste, ainda assim não escapou da tendência geral de queda que marca o tour deste ano.
Mato Grosso do Sul está em plena fase de planejamento da safra 2025/2026, com produtores da região de Dourados, Maracaju e Chapadão do Sul definindo contratos e estratégias de comercialização. Um cenário de oferta americana menor — especialmente se confirmado nos próximos dias, quando o tour alcança estados como Iowa e Illinois — tende a sustentar ou elevar as cotações do milho e da soja nas bolsas de Chicago, o que se reflete diretamente nos preços praticados nas tradings instaladas em território sul-mato-grossense.
O tour ainda está em andamento. Os próximos dias de avaliação cobrirão os maiores estados produtores do Corn Belt, que concentram fatia ainda maior da produção americana. Os resultados finais e a estimativa consolidada de produção devem ser divulgados ao mercado até o fim desta semana — e serão determinantes para o humor das cotações nas semanas seguintes. Para o produtor de MS que ainda tem grãos em estoque ou contratos a fechar, o sinal que chega de Washington e de Nebraska é: o mercado pode ter mais volatilidade pela frente.
Fontes: PRO FARMER CROP TOUR, ROYAL RURAL, USDA