O confinamento bovino em Mato Grosso caminha para o maior volume já registrado pelo estado: 1,33 milhão de cabeças deverão ser terminadas em 2026, um crescimento de 43,41% sobre as 928,7 mil registradas no ano anterior, conforme o segundo levantamento de intenções do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). O número é menor do que o projetado em abril — quando se estimavam 1,44 milhão de animais —, mas ainda representa um volume expressivo que pode pressionar a arroba justamente quando o principal comprador do boi brasileiro estiver fora do mercado.
A revisão para baixo reflete um ajuste de rota dos produtores à medida que as condições reais de compra de animais e insumos se tornaram mais claras ao longo do ano. Em julho, apenas 56,47% dos confinadores consultados confirmaram que prosseguiriam com a atividade — número bem distante dos 80,85% registrados em abril. Ainda assim, o mercado segue aquecido, e o impacto dessa safra de confinamento sobre os preços se tornará mais visível a partir do segundo semestre, com consequências diretas para os produtores de Mato Grosso do Sul.
O Imea estima que 80,74% de todos os animais confinados sejam direcionados ao abate entre julho e dezembro. O trecho mais crítico, porém, é o trimestre de setembro a novembro, que concentrará sozinho 48,31% das entregas — com o pico em novembro, quando está previsto 18,05% de todo o volume do ano. Essa pressão de oferta ocorre exatamente no período em que a China costuma desacelerar as importações de carne bovina brasileira após preencher a cota anual de 2026. Setembro e o início de outubro reúnem, portanto, o pior cenário possível: mais boi saindo do curral e menos demanda do principal destino das exportações.
A expectativa do setor é que os compradores chineses retomem as aquisições na segunda metade de outubro, já antecipando a cota de 2027. Mas até que isso ocorra, a capacidade de absorção dos frigoríficos brasileiros será testada. Sinais disso já aparecem: escalas de sete dias nos frigoríficos menores e algumas grandes indústrias com programação estendida até o final de agosto, segundo Eberti Aguiar, consultor da Hegde Agro Consultoria. "O mercado já apresenta negociações mais lentas", observou Aguiar em entrevista ao setor.
Um dos dados mais reveladores do levantamento diz respeito à adoção de instrumentos de proteção financeira. Em 2025, apenas 4,17% dos confinadores utilizavam contratos a termo; em 2026, esse índice saltou para 33,33% — crescimento de quase 700%. Nas operações realizadas via B3, a participação passou de 3,70% para 30,23%, expansão equivalente também a mais de 700%. Na prática, o uso combinado das duas modalidades de hedge tornou-se cerca de oito vezes maior em apenas um ano.
A mudança de comportamento reflete tanto a maturidade crescente dos produtores quanto as pressões de custo do período. A diária por cabeça confinada subiu para R$ 13,62, mesmo com queda no preço do milho e de outros ingredientes da ração. O principal vilão é o custo de reposição — apontado como preocupação por 23,76% dos entrevistados —, seguido pelo preço do boi gordo (19,80%) e pela baixa lucratividade (10,89%).
Mato Grosso do Sul é o terceiro maior estado confinador do Brasil e tem seu calendário de abate fortemente influenciado pelo comportamento do vizinho mato-grossense. Quando o volume de boi terminado em MT cresce 43% e se concentra em dois meses, a concorrência por escala nos frigoríficos aumenta, e o preço pago pela arroba no corredor de Campo Grande, Dourados e Três Lagoas tende a sofrer pressão para baixo. Produtores que não fizeram hedge nas últimas semanas ficam mais expostos à volatilidade do período.
Por outro lado, a demanda doméstica por carne bovina segue como variável de equilíbrio. Se o consumo interno absorver parte da oferta excedente antes que a China retome as compras, o tombo da arroba pode ser menor do que o pessimismo atual sugere. O cenário final dependerá da combinação entre capacidade instalada dos frigoríficos sul-mato-grossenses, consumo no mercado interno e o timing exato da reentrada chinesa nas compras para 2027 — o que, por ora, ninguém consegue prever com precisão.
Fontes: IMEA, HEGDE AGRO CONSULTORIA