O mercado do boi gordo atravessa uma semana de acomodação nos preços, mas um dado preocupa quem vive da pecuária em Mato Grosso do Sul: as exportações brasileiras de carne bovina registraram queda de 17,9% na quantidade média diária embarcada em agosto de 2026 ante o mesmo período do ano passado. O recuo, segundo analistas do setor, está diretamente ligado ao esgotamento antecipado da cota que o Brasil tinha disponível para abastecer o mercado chinês.
O estado é um dos maiores fornecedores nacionais de boi para abate e exportação, com rebanho que ultrapassa 21 milhões de cabeças e frigoríficos de grande porte instalados em cidades como Naviraí, Bataguassu, Três Lagoas e Campo Grande. Qualquer desaceleração no ritmo de embarques afeta diretamente o preço pago ao produtor na porteira.
Os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que, nos primeiros cinco dias úteis de agosto, o Brasil exportou 52,449 mil toneladas de carne bovina fresca, congelada ou refrigerada, movimentando US$ 324,515 milhões — com média diária de US$ 64,903 milhões. Em relação a agosto do ano passado, o valor médio diário caiu 9,3%, enquanto o volume despencou 17,9%. O preço médio da tonelada subiu 10,5%, chegando a US$ 6.187,20, o que indica que o Brasil exporta menos, mas vende mais caro por quilo embarcado.
Para Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, o freio era esperado. "A projeção dos volumes se mostra mais lenta neste início de agosto, com uma queda no ritmo diário ao longo do mês, algo previsível e que refletiu o esgotamento precoce da cota brasileira disponibilizada pela China", explicou o especialista. A China é, de longe, o principal destino da carne bovina produzida no Brasil — e o preenchimento antecipado da cota significa que o ritmo de compras pelo gigante asiático tende a diminuir até que novos volumes sejam negociados.
Enquanto os grandes frigoríficos do Centro-Sul do país chegaram ao mês de agosto com escalas de abate bem compostas — favorecidos pelo uso de animais de parceria e pela reorganização promovida durante férias coletivas —, a situação nas unidades da Região Norte é mais apertada. Com menor oferta de animais prontos para abate, essas indústrias têm aceitado pagar acima do preço de referência para garantir o fluxo de produção.
Esse desequilíbrio regional sustenta a estabilidade da arroba em nível nacional, ao menos por ora. No mercado atacadista, os cortes também seguiram sem variação: o quarto dianteiro foi cotado a R$ 20,00 por quilo e o quarto traseiro a R$ 27,00 por quilo, ambos inalterados em relação à semana anterior. A expectativa é de menor reposição nos próximos dias, com a demanda enfraquecendo após o efeito do pagamento de salários e o fim da data comemorativa do Dia dos Pais.
Para os pecuaristas sul-mato-grossenses, o cenário exige atenção. A estabilidade da arroba é bem-vinda, mas ela apoia-se em pilares frágeis: escala curta em alguns frigoríficos e uma demanda externa que deu sinais claros de desaceleração. MS tem posição relevante nesse tabuleiro — é o quarto maior rebanho bovino do país e abriga alguns dos maiores complexos frigoríficos da JBS e da Marfrig, empresas cujo faturamento de exportação reflete diretamente no fluxo de caixa do campo.
Se a China retomar as compras no mesmo ritmo das últimas semanas e novos destinos como Estados Unidos e países do Oriente Médio mantiverem a demanda, a pressão deve se dissipar. Caso contrário, a arroba — que hoje resiste — pode encontrar dificuldade para manter o patamar nas próximas semanas, impactando diretamente a renda de milhares de produtores espalhados pelo Pantanal, pelo Bolsão e pelo Cone Sul do estado.
Fontes: SECRETARIA DE COMÉRCIO EXTERIOR, SAFRAS & MERCADO