José Humberto Vilela Martins, o Zé Humberto, morreu neste domingo (16 de agosto) aos 84 anos, deixando um vazio sentido por criadores de gado em todo o Brasil — e especialmente no Centro-Oeste, onde sua influência sobre a seleção genética do nelore ajudou a moldar o modelo de pecuária praticado hoje em Mato Grosso do Sul. Mineiro de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, ele passou mais de seis décadas entre currais, pistas de exposição e debates técnicos que mudaram a forma como o Brasil cria boi de corte.
A morte de Zé Humberto encerra uma trajetória que começou na infância, ajudando o pai no manejo do rebanho, e se estendeu até os últimos anos, quando ele já conduzia a sucessão familiar, passando a administração das fazendas diretamente para os netos. Mais do que uma biografia pessoal, sua história é um retrato da transformação da pecuária brasileira — do abate de animais mal acabados para a terminação precoce de machos com mais de 20 arrobas aos dois anos de idade.
Criado no curral desde criança, José Humberto desenvolveu cedo um olhar clínico sobre o rebanho. Uma das primeiras marcas da sua gestão foi a redução drástica da mortalidade de bezerros nas fazendas da família — resultado de observação diária e ajustes finos no manejo, muito antes de qualquer protocolo formal de bem-estar animal. Com o tempo, tornou-se presença constante nas pistas de Uberaba e nos fóruns da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), onde defendia com firmeza o chamado boi funcional: animais adaptados ao pasto brasileiro, com bom acabamento de carcaça, e não apenas altura e quadro esquelético imponente.
Sua crítica à seleção de animais altos e tardios era direta e frequente. Para Zé Humberto, a genética precisava dialogar com a realidade do campo — pasto, nutrição e clima —, e não apenas com os padrões de julgamento das exposições. Esse tripé — genética de ponta, pasto bem manejado e nutrição de qualidade — virou quase um mantra que ele repetia em entrevistas e depoimentos, incluindo o registro feito pelo projeto Memórias do Brasil Rural, do Canal Rural.
Em seu depoimento ao Memórias do Brasil Rural, Zé Humberto deixou uma das frases mais citadas do agro brasileiro: "O pecuarista tem que gostar muito de gado, mas tem que gostar mais da fazenda dele, porque a fazenda é o motor dele. Se a fazenda pifar, ele pifa". A sentença traduz uma visão que ele aplicou ao longo de toda a carreira: a terra bem cuidada é o ativo central da pecuária, e o gado é consequência disso.
Além dos bovinos, Zé Humberto cultivou paixão pelos cavalos e se destacou em provas de rédeas pelo Brasil. A expansão dos negócios seguiu a lógica da fronteira agrícola: de Minas Gerais para Goiás, e depois para Mato Grosso, sempre com a família acompanhando de perto cada mudança.
Mato Grosso do Sul é hoje o quarto maior rebanho bovino do Brasil, com cerca de 22 milhões de cabeças, e tem na raça nelore e nos cruzamentos industriais zebuínos a espinha dorsal da sua pecuária de corte. Os critérios de seleção genética que Zé Humberto ajudou a consolidar — funcionalidade, precocidade e adaptação ao pasto tropical — são exatamente os parâmetros usados nas principais exposições do estado, como a Expogrande e feiras regionais em Dourados, Naviraí e Maracaju. O modelo que ele defendia nas pistas de Uberaba chegou às fazendas sul-mato-grossenses e segue orientando produtores que buscam terminar animais mais cedo e com melhor rendimento de carcaça.
Para o setor pecuário de MS, a perda vai além do simbolismo. Zé Humberto era uma referência viva de que técnica e paixão pela terra não são opostos — e que a sucessão familiar bem planejada é tão importante quanto a genética do rebanho. Ele deixa netos no comando das fazendas e uma geração de produtores formados, direta ou indiretamente, pela sua visão de campo.
Fontes: CANAL RURAL, ABCZ