R$ 60 mi para ponte que MS quer: empresários do Pantanal-MT pedem outro destino

Setor de turismo de Porto Jofre se mobiliza contra corredor rodoviário entre os dois estados e exige energia elétrica e infraestrutura interna como prioridade.

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R$ 60 mi para ponte que MS quer: empresários do Pantanal-MT pedem outro destino
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Empresários e lideranças do turismo no Pantanal mato-grossense travaram uma ofensiva formal contra a construção de uma ponte de concreto sobre o Rio Cuiabá, em Porto Jofre (MT), ao fim da Transpantaneira. A disputa vai além do concreto: o projeto integra um corredor rodoviário que ligaria os dois pantanais — o de Mato Grosso e o de Mato Grosso do Sul — e é justamente esse elo que divide os estados. Em reunião remota realizada na sexta-feira, 14 de agosto, com a diretoria da Fecomércio-MT, o setor deixou claro que prefere ver os recursos investidos dentro do próprio bioma, e não na construção de uma via de saída para o estado vizinho.

O projeto ganhou visibilidade pública em fevereiro deste ano, quando a Secretaria de Infraestrutura de Mato Grosso (Sinfra-MT) e a Secretaria de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso do Sul (Seilog-MS) assinaram um protocolo de intenções para viabilizar o corredor. Para os empresários mato-grossenses, o acordo foi selado sem que eles fossem consultados — e o maior beneficiado, segundo eles, seria o lado sul-mato-grossense da equação.

Quem paga a conta e quem leva o turista

O empresário André Turony, com mais de três décadas de atuação no Pantanal, colocou o debate em números: a ponte custaria cerca de R$ 60 milhões, e, na visão dele, esse montante seria muito mais eficiente se dividido entre energia elétrica, melhorias em estradas internas, segurança, navegação e reformas nas pistas de pouso que atendem os lodges e pousadas da região. "Não fomos ouvidos sobre o projeto dessa ponte. Necessitamos de energia elétrica, que é o mais importante. Defendemos a ligação por estradas entre as regiões do Pantanal", declarou Turony durante a reunião. O argumento central do setor é que hotéis, pousadas e fazendas turísticas geram emprego e renda locais — e uma via rápida para MS poderia desviar o fluxo de visitantes para o Pantanal sul-mato-grossense antes que eles gastassem no território mato-grossense.

José Marcos, representante da Instância de Governança Regional (IGR) Pantanal, foi ainda mais direto ao afirmar que a obra beneficiaria principalmente Mato Grosso do Sul. "Vamos apresentar um documento deixando claro que somos totalmente contra a ponte. Nosso projeto visa à integração dos municípios dentro de Mato Grosso, pois defendemos a economia local", explicou. O setor defende que o turista que chega a Porto Jofre para ver onças-pintadas, praticar pesca esportiva ou observar aves possa ampliar o roteiro dentro do próprio MT — não ser redirecionado para outro estado.

Fecomércio-MT entra na disputa e promete pressão política

O presidente da Fecomércio-MT, Sebastião Gonçalves, o Tião da Zaeli, comandou a reunião e prometeu movimentar o campo político. A entidade deve elaborar um documento formal a ser encaminhado a parlamentares ligados à causa do Pantanal e planeja convidar o secretário estadual de Infraestrutura de MT para explicar os reais objetivos do corredor rodoviário. "Entendemos a importância e o potencial turístico do Pantanal. Vamos discutir com a classe política para que olhem com prioridade o turismo no Pantanal", afirmou Gonçalves.

O presidente do Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade da Fecomércio-MT, Jaime Okamura, sugeriu que os próprios empresários elaborem um projeto alternativo, reunindo as demandas reais do setor em um documento técnico voltado ao desenvolvimento sustentável da região. "A partir desta reunião com os empresários, vamos para as próximas etapas e dar encaminhamento às propostas. Foi um encontro muito esclarecedor", disse Okamura, que também citou a importância das IGRs como articuladoras entre poder público, setor privado e comunidades locais.

O que está em jogo para Mato Grosso do Sul

Do lado sul-mato-grossense, o corredor rodoviário via Porto Jofre conectaria o Pantanal de MS ao de MT por estrada pavimentada — algo que hoje inexiste e que obrigaria turistas e cargas a rotas muito mais longas. Corumbá, principal porta de entrada do Pantanal sul-mato-grossense, e destinos como Aquidauana, Miranda e Porto Murtinho ganhariam acesso terrestre ao lado mato-grossense do bioma, potencialmente integrando roteiros que hoje são impossíveis de fazer por estrada. O setor de turismo de MS, que tem no ecoturismo e no pantaneiro um de seus pilares econômicos, vê a ponte como alavanca para ampliar a movimentação de visitantes na região. A resistência vinda de MT coloca agora o governo sul-mato-grossense diante de um impasse político: manter o protocolo assinado com a Sinfra-MT ou buscar uma negociação que contemple também as demandas dos empresários vizinhos.

A disputa em torno dos R$ 60 milhões revela uma tensão antiga sobre quem financia e quem se beneficia de infraestrutura compartilhada no Pantanal. O bioma é um só, mas os interesses econômicos de cada lado da fronteira estadual raramente andam na mesma direção — e esse imbróglio em Porto Jofre promete se arrastar pelas próximas semanas, à medida que parlamentares, secretários e empresários dos dois estados se posicionam sobre o projeto.

Fontes: FECOMÉRCIO-MT, JBNEWS


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