Um espetáculo teatral que costura a teoria do Big Bang com as cosmovisões dos povos Guarani Mbya e Desana — e inclui um canto indígena aprendido diretamente numa comunidade próxima a Dourados — está em turnê por Mato Grosso do Sul com apresentações gratuitas em praças, escolas e aldeias. A montagem "Jurema e a Criação do Mundo" passou por Bonito nos últimos dias e chega a Campo Grande no dia 23 de agosto, às 17 horas, no Teatro do Mundo, antes de encerrar a rota no dia 4 de setembro na Comunidade Indígena Tomázia, em Porto Murtinho.
A produção é idealizada pela atriz e palhaça Sorrayla Acosta Parra, que levou quase dois anos de pesquisa para transformar saberes ancestrais em linguagem cênica. O roteiro acompanha a Palhaça Jurema em busca de respostas para uma das perguntas mais antigas da humanidade: como o mundo surgiu? No caminho, ela apresenta três respostas distintas — a científica e as narrativas de dois povos originários — sem hierarquizar nenhuma delas.
Um dos momentos mais delicados da montagem é a incorporação do canto Guarani-Kaiowá "Mamo Oimē Nde Rory" — que em português significa "Onde está sua alegria?". A artista aprendeu a canção junto à comunidade de I'tay, localidade próxima a Dourados, com mediação da professora Graciela Chamorro e do grupo Veraju. O uso da música foi autorizado formalmente pela comunidade, o que, segundo a equipe, distingue a produção de um simples aproveitamento estético de culturas alheias.
"Durante esse percurso, conhecemos diferentes formas de perceber a terra, os rios, as plantas, os animais e nossa relação de pertencimento com a natureza. Também tivemos muito cuidado para contar essas histórias com respeito, valorizando os conhecimentos dos povos originários sem nos apropriarmos deles", disse Sorrayla Acosta Parra, idealizadora e protagonista do espetáculo. A pesquisa de campo que embasou o texto dramatúrgico, assinado por Amanda Carneiro, envolveu leituras, escuta ativa e encontros presenciais com lideranças e educadores indígenas ao longo de praticamente dois anos.
Antes de chegar à capital, a peça já passou pela Escola Municipal João Alves de Arruda e pela Praça da Liberdade, ambas em Bonito, e encerrou o trecho no município com sessões no Distrito Águas do Miranda e na Praça da Marambaia — esta com intérprete de Libras. A escolha por espaços abertos e escolas públicas é parte deliberada da proposta: levar o teatro a quem raramente entra em uma sala convencional.
O calendário restante da turnê passa pelo Assentamento Guaicurus em Bonito no dia 20 de agosto, por Jardim no dia 22, por Campo Grande no dia 23 e encerra em Porto Murtinho no dia 4 de setembro. Todas as sessões são gratuitas. A ficha técnica reúne direção e concepção cênica de Ulisses Nogueira, cenografia de Ronald Rosa e Adrian Hardt, figurino de Marianne Sguissardi e trilha sonora ao vivo executada por Júnior Mendes, José Antônio Domingos e Flávio Teixeira.
O que torna a turnê relevante além do mérito artístico é a escolha de territórios que raramente recebem produções teatrais profissionais: assentamentos rurais, distritos remotos e comunidades indígenas. Em Mato Grosso do Sul — estado com a segunda maior população indígena do Brasil e marcado por tensões históricas em torno da demarcação de terras — uma montagem que coloca as cosmovisões Guarani e Desana no centro da narrativa, construída com anuência das próprias comunidades, carrega um peso simbólico que vai além do palco.
O espetáculo conta com apoio da Casa de Cultura Espiral Arte e Movimento e de Uli Produções. Quem quiser assistir em Campo Grande não precisa de ingresso: basta chegar ao Teatro do Mundo no dia 23 de agosto às 17h.
Fontes: PREFEITURA MUNICIPAL DE BONITO