Caramuru origina 614 mil t de soja, mas biodiesel sem B16 corrói margens
Processadora de grãos registrou lucro de R$ 179 mi no 2º trimestre de 2026, porém queda de rentabilidade em soja e biocombustíveis acende alerta para o setor.
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A Caramuru Alimentos encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 179,1 milhões — crescimento de 2,8% na comparação com o mesmo período do ano anterior — impulsionada por volume recorde de originação de grãos, mas com rentabilidade corroída pela valorização do real e pela estagnação da política de mistura obrigatória de biodiesel no país. O resultado coloca a empresa num campo de tensão que já é familiar ao agronegócio de Mato Grosso do Sul: crescer em volume enquanto as margens minguam.
A companhia, uma das maiores processadoras de soja do Brasil e com forte presença na cadeia de biocombustíveis, movimentou 721,6 mil toneladas no trimestre, alta de 8,9%. A originação de soja saltou 59,1%, chegando a 614,4 mil toneladas, enquanto o milho foi de 4 mil para 49,7 mil toneladas — um salto que evidencia diversificação estratégica em meio a um mercado de margens apertadas.
Mais grãos entram, mas a rentabilidade sai menorA receita líquida do trimestre chegou a R$ 2,104 bilhões, com avanço de 5,6%, e o Ebitda ajustado cresceu 11,6%, para R$ 291,3 milhões. O destaque de faturamento veio do segmento de commodities diferenciadas — farelos proteicos e ingredientes derivados de soja com maior valor agregado —, que faturou R$ 778,7 milhões, alta de 17,4%, e passou a representar 37% da receita total, contra 33% há um ano.
Mas o crescimento da receita não segurou as margens. No mesmo segmento de commodities diferenciadas, o lucro bruto desabou 35,6%, caindo para R$ 76,2 milhões, e a margem bruta recuou de 17,8% para 9,8%. A empresa apontou dois vilões: a compressão no processamento da soja e a valorização do real frente ao dólar, que penaliza exportadores e processadores que precificam em moeda estrangeira. No segmento de commodities tradicionais, o cenário foi ainda mais severo — o resultado bruto virou prejuízo de R$ 34,1 milhões, ante lucro de R$ 21,3 milhões um ano antes.
Biodiesel sem B16: a promessa que não veio e afundou receitasO segmento de biocombustíveis, estratégico para a Caramuru, registrou queda de receita de 3,3% no trimestre, para R$ 568,6 milhões. No acumulado do primeiro semestre, o recuo foi mais expressivo: 14,3%, com a receita caindo para R$ 1,057 bilhão. Volume vendido encolheu 6,7% e o preço médio caiu 8,3%.
A explicação da empresa é direta: o governo federal manteve a mistura obrigatória de biodiesel em 15% — o chamado B15 — sem implementar o avanço para o B16, que estava sendo aguardado pelo setor. Cada ponto percentual a mais na mistura significa demanda adicional significativa para produtores de biodiesel. Sem esse incremento, o mercado ficou estagnado e os preços cederam. Para o agronegócio sul-mato-grossense, que fornece soja para a cadeia de biodiesel, a paralisação do calendário de expansão da mistura tem efeito cascata direto sobre a demanda da oleaginosa.
Semestre no vermelho e dívida crescendo: o que preocupa para o segundo tempoO acumulado do primeiro semestre revela o lado mais pesado da equação. A receita líquida recuou 0,6%, para R$ 3,736 bilhões, mas o Ebitda ajustado despencou 30,9%, para R$ 293,6 milhões, e o lucro líquido caiu 26%, para R$ 214,6 milhões. A dívida líquida encerrou junho em R$ 2,766 bilhões, com alta de 11,1% em doze meses, e a alavancagem subiu de 3,46 para 4,06 vezes a relação entre dívida e Ebitda dos últimos 12 meses.
Para os produtores de soja e milho de Mato Grosso do Sul, o desempenho da Caramuru funciona como termômetro do mercado de originação. Uma processadora que cresce em volume mas comprime margens tende a ser mais seletiva nas condições que oferece ao produtor. A definição sobre o B16 pelo governo federal, portanto, não é apenas regulação setorial — é política agrícola com efeito direto nas porteiras do estado.
Fontes: CANAL RURAL, CARAMURU ALIMENTOS