Colheita brasileira 10% abaixo do ano passado sustenta preço do café em NY
Atraso na safra 2026/27, terremoto na Colômbia e logística global pressionada mantêm mercado cafeeiro volátil e cotações elevadas
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O mercado internacional de café encerrou a sessão desta sexta-feira, 14 de agosto, com o arábica em alta na Bolsa de Nova York, impulsionado principalmente pelo ritmo lento da colheita brasileira e por uma sequência de choques externos que complicam a leitura do setor. O contrato de setembro fechou cotado a 338,10 centavos de dólar por libra-peso, com avanço de 500 pontos; o de dezembro subiu 150 pontos e terminou o pregão a 314,30 cents/lb; já o contrato para março de 2027 recuou levemente, 5 pontos, fechando a 303,20 cents/lb. O robusta negociado em Londres também operou sob pressão técnica ao longo do dia.
O pano de fundo desse ambiente de alta é construído por camadas. A consultoria Safras & Mercado divulgou nesta sexta-feira que a colheita brasileira da safra 2026/27 estava 90% concluída até 12 de agosto — índice bem abaixo dos 97% registrados no mesmo período de 2025 e da média histórica de cinco anos, que é de 94%. No segmento do arábica, principal tipo exportado pelo Brasil, o avanço era de apenas 86%, contra 95% um ano antes. Na região da Cooxupé, uma das mais representativas do país, o índice chegava a 74,6% até o dia 7 de agosto, contra 80,4% no mesmo ponto da safra anterior.
Terremoto na Colômbia adiciona mais uma incógnita à equação globalNa segunda-feira, 10 de agosto, um terremoto de intensidade significativa atingiu a Colômbia e afetou diretamente regiões cafeeiras do país. As exportações pelo porto de Buenaventura foram parcialmente retomadas, mas o fluxo segue intermitente. Segundo dados da Barchart, as estruturas de processamento e beneficiamento do grão não sofreram danos graves, o que alivia parte das preocupações, mas a situação ainda não foi completamente avaliada — e a incerteza, por si só, já move cotações.
O episódio colombiano se somou a um conjunto de fatores que o analista de mercado e diretor do Escritório Carvalhaes, Eduardo Carvalhaes, descreve como um cenário de difícil previsibilidade. Ele aponta adversidades climáticas em diversas regiões produtoras, com perspectivas de um El Niño forte, estoques globais ajustados, demanda aquecida, e os efeitos persistentes da guerra entre Rússia e Ucrânia na logística internacional. "Nós estamos passando por uma nova fase no mundo, com a inteligência artificial e a comunicação em rede, e o café também vai procurar novos modos de comercialização que nós não sabemos muito bem como é que vai ser", afirmou o especialista em entrevista ao Bom Dia Agronegócio.
Produtor brasileiro adota cautela e segura o grão como reserva de valorDiante da volatilidade, o cafeicultor brasileiro tem evitado comprometer vendas antecipadas em volume. A estratégia, segundo Eduardo Carvalhaes, é tratar o café como uma espécie de reserva: por ser uma commodity cotada em dólar e de alta liquidez, o produtor prefere vender aos poucos, conforme a necessidade de caixa, sem se expor ao risco de uma safra futura menor do que o esperado. O resultado é que novos negócios no mercado interno permanecem escassos e pontuais.
As ferramentas tradicionais de proteção de preço em bolsa, segundo o analista, têm se mostrado pouco eficientes no ambiente atual. A volatilidade excessiva desequilibra os modelos de hedge que funcionaram bem em ciclos anteriores, deixando tanto operadores quanto produtores em compasso de espera. O cenário para a safra 2027/28 já começa a despertar atenção — mas sem clareza sobre o tamanho real da colheita atual, qualquer projeção carrega risco elevado.
O que isso significa para Mato Grosso do Sul e a cadeia regionalPara o agronegócio de Mato Grosso do Sul, que tem no grão verde e no café torrado importantes linhas de comércio — especialmente no eixo da fronteira com o Paraguai e nos mercados locais abastecidos a partir das regiões produtoras do Sul de Minas e do Espírito Santo —, a alta das cotações internacionais pode pressionar os preços ao consumidor final nos próximos meses. Torrefadoras e distribuidoras que trabalham com contratos de curto prazo tendem a repassar variações com mais rapidez.
O atraso na colheita brasileira significa menor volume disponível no curto prazo, o que dá sustentação às cotações mesmo em momentos de ajuste técnico. Enquanto o mercado aguarda a conclusão da safra e tenta dimensionar os impactos colombianos, a tendência de volatilidade deve continuar dominando o setor cafeeiro ao longo das próximas semanas.
Fontes: SAFRAS & MERCADO, ESCRITÓRIO CARVALHAES, BARCHART