Especialista alerta: segurar milho agora pode sair caro para o produtor

Enquanto Chicago fecha semana em alta puxada pela guerra no Mar Negro, produtor brasileiro enfrenta excesso de oferta e comercialização atrasada.

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A semana encerrou com um cenário dividido para o mercado do milho: lá fora, os preços avançaram com força na Bolsa de Chicago, sustentados pelo conflito entre Rússia e Ucrânia e pela valorização do trigo; aqui dentro, o produtor brasileiro — incluindo os de Mato Grosso do Sul — ainda enfrenta uma segunda safra com comercialização travada, oferta elevada e o risco real de perder as janelas de valorização por apostar na espera.

Na sexta-feira, 14 de março, os contratos de milho negociados na CBOT (a bolsa de Chicago) encerraram o dia com alta de até 11,75 pontos, com o contrato de dezembro sendo cotado a US$ 4,83 por bushel. O movimento não veio do nada: foi o trigo que puxou, subindo mais de 3% nos contratos mais ativos, enquanto a tensão geopolítica no Mar Negro voltou a pressionar as expectativas de oferta global de grãos.

Guerra bloqueia rotas e pressiona cotações globais

A Rússia descartou na sexta-feira qualquer possibilidade de retomada de um corredor seguro de exportação de grãos pelo Mar Negro — aquele acordo firmado em 2023 que havia facilitado o escoamento da produção ucraniana. A recusa veio acompanhada de novos episódios de ataques portuários: na quarta-feira anterior, forças ucranianas atingiram o porto russo de Novorossiysk, enquanto a Rússia revidou com ataques ao porto ucraniano de Izmail, no rio Danúbio.

O ambiente de insegurança logística na região alimentou a alta do trigo e, por arrasto, sustentou também o milho. Além do componente geopolítico, o mercado ainda digeriu o relatório mensal do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), divulgado na quarta-feira, que revisou para baixo a produtividade do milho norte-americano — embora tenha elevado a área plantada e aumentado a projeção de exportações americanas, fatores que reforçaram o suporte aos futuros.

No Brasil, o problema não é preço lá fora — é escoar o que produziu

Se do lado externo o quadro pareceu animador, a realidade dos produtores brasileiros é bem mais complexa. O dólar ultrapassando R$ 5,20 ajudou a transferir parte do otimismo de Chicago para a B3, onde os contratos de milho também fecharam em alta. Mas o câmbio favorável não resolve o gargalo central: há muito milho disponível e pouco espaço para escoá-lo.

Segundo Roberto Carlos Rafael, analista de mercado e diretor da Germinar Corretora, o Brasil convive neste momento com uma oferta elevada e uma comercialização da segunda safra ainda atrasada em diversas regiões. "O grande desafio é encontrar espaço para escoar o excedente, principalmente via exportações", avaliou o especialista. Para Rafael, a abundância de produto tende a limitar qualquer recuperação mais consistente dos preços internos enquanto o mercado não absorver o volume produzido.

O que o produtor sul-mato-grossense deve fazer agora

Mato Grosso do Sul figura entre os principais estados produtores da segunda safra de milho no Brasil, e os efeitos desse cenário chegam diretamente às propriedades rurais do estado. A orientação que emerge da análise de especialistas vai na contramão do instinto de segurar o produto à espera de valorização.

Rafael defende que eventuais momentos de alta no mercado — como o desta sexta — devem ser aproveitados ativamente para avançar na comercialização e reduzir a exposição ao risco de novas quedas. Segurar o milho em um mercado com excesso de oferta pode significar vender mais barato no futuro do que hoje. O produtor que usar as altas externas como janela para fechar negócio sai em vantagem frente a quem aguarda uma recuperação que pode não se sustentar.

A semana termina, portanto, com um milho globalmente mais valorizado — mas com um recado claro do mercado para quem produz no Brasil: o problema não está no preço de Chicago, está na dificuldade de transformar produção em receita antes que o excedente pressione ainda mais as cotações domésticas.

Fontes: NOTÍCIAS AGRÍCOLAS, USDA, GERMINAR CORRETORA