Oitenta alunos do 2º ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal Marlene Noronha Gonçalves, em Três Lagoas, tiveram nos dias 12 e 13 de agosto um encontro incomum com a fauna do Cerrado: conhecer de perto o tatu-canastra (Priodontes maximus), o maior tatu do mundo e uma das espécies mais ameaçadas do bioma que cobre grande parte do Mato Grosso do Sul. A ação reuniu a Secretaria de Meio Ambiente, a Secretaria de Educação e o Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) para marcar o Dia do Tatu-Canastra, celebrado em 13 de agosto.
O que torna a iniciativa mais do que uma comemoração de data ambiental é o fato de o município já abrigar, há mais de três anos, um projeto científico de monitoramento da espécie dentro do Parque Natural Municipal do Pombo, uma das principais reservas ecológicas da região. É essa pesquisa que fornece a base técnica para transformar dados de campo em conteúdo pedagógico acessível a crianças de 7 e 8 anos.
O tatu-canastra é considerado uma espécie-chave do Cerrado: suas escavações criam tocas que servem de abrigo para dezenas de outros animais, e seu hábito alimentar de abrir cupinzeiros regula a população de insetos. Perder esse animal significa desestabilizar toda uma cadeia ecológica. No Brasil Central, ele figura na lista de espécies ameaçadas de extinção, pressionado pelo desmatamento, atropelamentos em rodovias e caça ilegal — pressões que o Cerrado sul-mato-grossense também enfrenta de perto.
O ICAS acompanha a população do Parque do Pombo com rastreamento e monitoramento de longo prazo, gerando dados que raramente chegam às salas de aula. A parceria com a prefeitura criou justamente essa ponte entre ciência e escola pública.
As três turmas do 2º ano foram divididas em atividades interativas que incluíram apresentações sobre a biologia e os hábitos do animal, além de materiais lúdicos produzidos especialmente para a faixa etária. A diretora de Meio Ambiente da SEMEA, Maysa Queiroz da Costa, explicou a lógica por trás do público escolhido: "Cuidar do tatu-canastra é preservar o equilíbrio do nosso meio ambiente. Quando ensinamos às crianças a importância dessa e de outras espécies, estamos garantindo o futuro da nossa biodiversidade e fortalecendo o respeito à natureza. Elas se tornam verdadeiras multiplicadoras da preservação em suas casas e bairros", afirmou.
A escolha do ensino fundamental inicial não é ao acaso: pesquisas em educação ambiental indicam que valores relacionados à preservação formados na infância têm maior persistência ao longo da vida do que campanhas voltadas a adultos. Ao levar a discussão para dentro de casa — junto com pais e responsáveis —, cada criança amplia o alcance real da ação.
O monitoramento contínuo do ICAS no Parque do Pombo vai além do inventário de espécies: gera subsídios para decisões de gestão territorial, como corredores ecológicos e fiscalização de áreas de risco. Com mais de três anos de dados acumulados, Três Lagoas passa a ter um dos registros mais detalhados sobre tatu-canastra no estado — informação valiosa em um momento em que Mato Grosso do Sul discute a expansão agrícola sobre áreas de Cerrado nativo.
A tendência é que o modelo seja replicado em outras escolas da rede municipal nos próximos ciclos letivos, ampliando o número de estudantes alcançados e consolidando a educação ambiental como eixo permanente do currículo, e não apenas uma ação pontual de data comemorativa. Para uma cidade que convive com uma reserva ecológica ativa dentro do próprio perímetro urbano, integrar ciência e sala de aula pode ser o caminho mais concreto para garantir que o Parque do Pombo — e os animais que nele vivem — continuem existindo nas próximas décadas.
Fontes: PREFEITURA DE TRÊS LAGOAS, SEMEA