85% das reservas da Bolívia são ouro enquanto PIB deve cair até 3,3%

Banco Central boliviano registrou US$ 3,6 bilhões em reservas em julho, mas FMI e Banco Mundial alertam para contração severa da economia em 2026.

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85% das reservas da Bolívia são ouro enquanto PIB deve cair até 3,3%
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O Banco Central da Bolívia (BCB) divulgou nesta terça-feira, 11 de agosto, que as reservas internacionais líquidas do país encerraram julho em US$ 3,632 bilhões — cerca de R$ 20,8 bilhões na cotação atual. O número representa uma pequena recuperação em relação aos US$ 3,617 bilhões registrados no fim de junho, mas esconde uma composição que preocupa economistas: 85% dessas reservas são ouro, não dólares circulantes.

A dependência do metal precioso revela o quanto a Bolívia ainda está distante de uma normalidade financeira. No auge econômico do país, em 2014, as reservas chegaram a US$ 15,1 bilhões — mais de quatro vezes o volume atual. A crise começou a se tornar visível em 2023, quando a escassez de dólares passou a afetar o comércio, os saques bancários e a vida cotidiana dos bolivianos.

Ouro, não dólares: o que a composição das reservas revela

Dos US$ 3,632 bilhões totais, US$ 3,091 bilhões estão em ouro, o equivalente a 85,1% do total. O restante se divide entre divisas estrangeiras (US$ 472 milhões, ou 13%), direitos especiais de saque junto ao FMI (US$ 33 milhões) e a chamada posição de reserva no Fundo Monetário Internacional (US$ 36 milhões). Na prática, isso significa que o país tem pouca liquidez imediata em moeda conversível para pagar importações, saldar dívidas externas ou estabilizar o câmbio.

A situação cambial foi uma das mais dramáticas da região nos últimos três anos. Durante décadas, a Bolívia manteve uma taxa de câmbio fixa de 6,96 bolivianos por dólar — um regime que vigorou desde 2011. Com a escassez de dólares, o mercado paralelo passou a praticar cotações muito superiores à oficial, criando uma distorção que prejudicava tanto empresas quanto consumidores. Apenas no final de junho de 2026 o governo adotou um câmbio flutuante, encerrando 15 anos de paridade artificial.

FMI e Banco Mundial preveem queda de mais de 3% no PIB boliviano

O cenário macroeconômico é agravado por projeções pessimistas de organismos internacionais. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial estimam que o PIB boliviano recuará entre 3,2% e 3,3% ao longo de 2026. O próprio governo boliviano reconhece a retração, mas projeta uma queda menor, entre 0,7% e 1%, atribuindo parte do impacto negativo aos bloqueios de estradas e protestos que paralisaram o país durante maio e junho.

Uma das medidas adotadas para tentar recompor a confiança financeira foi a autorização para que os bolivianos voltassem a sacar e movimentar suas poupanças em dólares — algo que havia sido suspenso por dois anos em meio às restrições cambiais. A retomada dos saques em divisas é vista como um sinal de distensão, mas analistas ressaltam que a crise estrutural ainda não foi superada.

O que a instabilidade boliviana significa para o leitor de MS

Para Mato Grosso do Sul, a crise na Bolívia tem impacto direto, especialmente para o setor de gás natural. O estado depende historicamente do gás boliviano distribuído pela Transpetro via Gasbol, e qualquer instabilidade econômica ou política no país vizinho afeta contratos e preços de abastecimento industrial. Além disso, empresas sul-mato-grossenses que mantêm relações comerciais com a Bolívia passam a enfrentar maior imprevisibilidade cambial com a adoção do câmbio flutuante, o que pode encarecer importações e complicar negociações de médio prazo.

A adoção do câmbio flexível, embora necessária para corrigir distorções, tende a pressionar a inflação boliviana no curto prazo — o que pode afetar o poder de compra da população e, consequentemente, reduzir a demanda por produtos exportados pelo Brasil. O momento exige atenção especial de exportadores e importadores que operam na fronteira e nos corredores logísticos que ligam o Centro-Oeste brasileiro ao mercado andino.

Fontes: EFE, BANCO CENTRAL DA BOLÍVIA


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