Dois compromissos anunciados pela Administração Nacional de Electricidade (ANDE), a estatal paraguaia de energia elétrica, seguem sem desfecho concreto: a venda de energia ao mercado livre do Brasil, lançada em maio de 2024, e a emissão de títulos próprios sem aval do Estado paraguaio, que circula desde 2022. Mais de dois anos depois do primeiro anúncio, nenhum dos dois projetos tem data definida para se concretizar — e o silêncio institucional alimenta dúvidas sobre a viabilidade política e econômica das iniciativas.
A situação interessa diretamente ao Brasil, especialmente a Mato Grosso do Sul: o acordo que deu origem à tentativa de venda de energia foi firmado pelos presidentes Lula da Silva e Santiago Peña no âmbito das negociações sobre Itaipu, e a comercialização envolve o mercado livre brasileiro, que pode absorver energia gerada pela hidrelétrica paraguaia Acaray.
Em 31 de maio de 2024, a ANDE abriu com estardalhaço o primeiro processo para comercializar 100 MW gerados pela Central Acaray diretamente no mercado livre do Brasil. O então presidente da estatal, eng. Félix Sosa, descreveu o momento como inédito: "hoje iniciamos a possibilidade de colocar nossa energia paraguaia no grande mercado elétrico brasileiro". O edital previa prazo de 20 dias para consultas, recepção de propostas até 1º de julho de 2024 e contratos de um a seis anos — sem necessidade de investimento adicional do Paraguai.
Em novembro de 2024, o Brasil publicou a portaria definitiva que ampliou o volume autorizado de 100 para 120 MW e flexibilizou a origem da energia, permitindo qualquer fonte paraguaia que não seja Itaipu. Apesar disso, o processo travou no lado paraguaio. A empresa Infinity Comercializadora de Energia Ltda. mantinha, em janeiro de 2026, a melhor proposta econômica recebida: US$ 21,03 por MWh — abaixo da tarifa técnica da ANDE —, precisando renová-la a cada três meses enquanto aguardava uma decisão oficial que não chegava. A assinatura final depende do Equipo Económico Nacional (EEN), instância do governo paraguaio, e nenhuma previsão foi dada.
O segundo projeto sem conclusão é a emissão de títulos da própria ANDE no mercado de capitais — sem aval do Estado, algo inédito para uma empresa pública paraguaia. A ideia surgiu em março de 2022, quando Sosa mencionou pela primeira vez o mercado de valores como alternativa para financiar o plano de expansão da estatal. Em agosto de 2023, o projeto ganhou forma: a ANDE detalhava uma dívida total que incluía US$ 469,42 milhões devidos ao Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), US$ 302,06 milhões em bônus soberanos e outros US$ 228,01 milhões com credores como Banco do Brasil, Banco de la Nación Argentina, o banco alemão KFW e a agência japonesa JICA, entre outros.
O objetivo declarado pelo então diretor de Planejamento, eng. Francisco Escudero, era tornar a ANDE financeiramente autônoma. A emissão planejada era de G. 1,5 trilhão — equivalente a aproximadamente R$ 1,1 bilhão (cerca de US$ 198 milhões). A lei orçamentária de 2025 autorizou formalmente a operação, mas ela não foi realizada. O orçamento de 2026 renovou a autorização, reconhecendo expressamente que a emissão prevista para o exercício anterior "até a data não se realizou". Em janeiro de 2026, a auditora Ernst & Young concluiu a revisão dos demonstrativos financeiros da ANDE — passo considerado essencial para obter classificação de risco internacional. Em maio de 2026, Escudero ainda falava no condicional: "estamos trabalhando para alcançar essa emissão, inclusive no futuro — por que não pensar em uma emissão internacional?"
Para o Brasil — e particularmente para Mato Grosso do Sul, estado com extensa fronteira com o Paraguai e histórico de integração energética pela binacional Itaipu —, o imbróglio da ANDE tem implicações práticas. O mercado livre brasileiro estava pronto para receber a energia: a portaria brasileira foi publicada, o volume foi ampliado e havia pelo menos uma empresa interessada com proposta formalizada. O gargalo está em Assunção.
A frustração dos dois projetos lança questionamentos sobre a capacidade de gestão da ANDE num momento em que o Paraguai negocia o futuro do Anexo C do Tratado de Itaipu — o dispositivo que regulamenta a cessão de energia à Eletrobras. A eventual venda de energia da Acaray ao mercado livre seria um sinal concreto de que o país consegue monetizar sua matriz elétrica de forma independente. Por ora, esse sinal ainda não veio.
Fontes: ABC COLOR, ANDE