O mercado internacional do açúcar abriu a semana em compasso dividido: enquanto a Bolsa de Nova York mantém trajetória de alta sustentada por uma oferta global cada vez mais apertada, a praça londrina registrou queda nesta segunda-feira (10) em movimento de realização de lucros após atingir os maiores patamares em quase um ano. Por trás da volatilidade, uma combinação preocupante de clima adverso na Europa, monções fracas na Índia e produção em queda no Brasil coloca em xeque a disponibilidade do produto na próxima temporada.
A pressão sobre os preços não é novidade, mas ganhou força significativa nos últimos dias. Na sexta-feira passada (8), o contrato de açúcar bruto em Nova York bateu a maior cotação em dez meses, enquanto o açúcar branco em Londres atingiu o nível mais alto em onze meses. O ajuste desta segunda é, segundo analistas, um respiro técnico — não uma reversão de tendência.
Na ICE Futures US, em Nova York, o contrato com vencimento em outubro era negociado por volta das 10h30 (horário de Brasília) a 16,54 cents de dólar por libra-peso, com alta de 9 pontos. O contrato para março de 2027 avançava 13 pontos, cotado a 17,43 cents por libra-peso — sinal de que o mercado projeta pressão de oferta ao longo dos próximos meses.
Em Londres, o cenário foi distinto. O contrato de açúcar branco para outubro recuou 110 pontos, sendo negociado a US$ 502,30 por tonelada. O contrato para dezembro caiu 80 pontos, a US$ 502,40 por tonelada. A diferença entre as duas praças reflete não apenas instrumentos distintos — açúcar bruto em Nova York e branco em Londres — mas também dinâmicas regionais de demanda e posicionamento de investidores.
A Europa enfrenta uma combinação de seca prolongada e temperaturas acima da média que deve derrubar a produção de açúcar da União Europeia e do Reino Unido para 14,98 milhões de toneladas na safra atual — o menor volume em 11 anos, de acordo com dados da S&P Global Energy. O impacto já se reflete nas revisões de balanço feitas pelas principais consultorias do setor.
Na Índia, segundo maior produtor mundial, o quadro também é delicado. O Departamento Meteorológico do país informou na sexta-feira que as chuvas de monção esperadas para agosto e setembro devem ficar abaixo do normal, enquanto o Ministério de Ciências da Terra mantém alerta de que a temporada atual pode ser a mais fraca dos últimos onze anos. Como as monções — que ocorrem entre junho e setembro — são decisivas para o desenvolvimento dos canaviais indianos, qualquer frustração de chuvas se traduz diretamente em redução de colheita meses depois. Além disso, o fenômeno climático El Niño segue no radar: a expectativa é de que reduza precipitações em regiões produtoras estratégicas como Brasil, Índia e Tailândia, ampliando os riscos para a oferta global.
No Brasil, maior produtor mundial, os dados já confirmam o que o clima antecipava. A produção de açúcar do Centro-Sul caiu 26,3% em junho, chegando a 3,903 milhões de toneladas, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA). O resultado reforça a percepção de aperto no balanço global.
As principais consultorias do setor revisaram significativamente suas projeções para a safra 2026/27. A Covrig Analytics inverteu sua previsão: o que antes era um superávit de 100 mil toneladas passou a ser projetado como déficit de 300 mil toneladas. A Green Pool Commodity Specialists foi mais longe e estima um déficit de 3,3 milhões de toneladas. Já a StoneX triplicou sua projeção de escassez, de 550 mil para 1,7 milhão de toneladas.
Para o agronegócio de Mato Grosso do Sul, o cenário é de atenção redobrada. O estado não é grande produtor de cana-de-açúcar em escala nacional, mas sente os efeitos indiretamente: usinas instaladas na região Centro-Sul e o setor sucroenergético como um todo influenciam o custo de insumos, o mercado de trabalho rural e os preços de combustíveis derivados da cana, como o etanol. Com as cotações do açúcar sustentadas em patamares elevados ao longo dos próximos meses, o etanol tende a permanecer competitivo — o que afeta diretamente os preços nos postos de combustíveis e nas decisões de mistura do governo federal.
O movimento desta segunda-feira pode ser pontual, mas o consenso entre analistas é que o piso do açúcar subiu. Com clima adverso em três continentes e déficits revisados para cima em série, a tendência de alta nas cotações tem mais fundamentos do que o mercado reconhecia há poucos meses.
Fontes: UNICA, S&P GLOBAL ENERGY, COVRIG ANALYTICS, GREEN POOL COMMODITY SPECIALISTS, STONEX