O Brasil pode enfrentar elevação de temperatura entre 3,5°C e 4°C acima dos níveis pré-industriais — quase o triplo da média global de 1,45°C —, e esse cenário já está se traduzindo em perdas concretas para a agricultura, o setor elétrico e o mercado financeiro. O alerta é de Paulo Artaxo, professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências, que vem detalhando os mecanismos pelos quais as mudanças climáticas corroem o PIB nacional.
O tema saiu há muito tempo das pautas ambientais e chegou às mesas de gestão de risco. O próprio Fórum Econômico Mundial de Davos registrou, nos últimos cinco relatórios anuais, que pelo menos cinco dos dez maiores riscos globais para a economia têm origem climática ou ambiental. No Brasil, a combinação de localização tropical, dependência hídrica da Amazônia e uma das maiores fronteiras agrícolas do planeta torna o país particularmente vulnerável.
A agricultura do Brasil Central — que inclui Mato Grosso do Sul, maior produtor de soja e milho do Centro-Oeste — depende de um fluxo contínuo de umidade gerado pela floresta amazônica. Esse mecanismo, chamado de rios voadores, distribui chuvas para regiões distantes milhares de quilômetros da bacia. Quando o desmatamento ilegal avança, esse fluxo é interrompido, e o resultado é a irregularidade das chuvas que irrigam lavouras de sequeiro e as próprias represas hidrelétricas que abastecem a matriz energética nacional.
"O agronegócio já está sofrendo perdas bilionárias e o setor de seguros está reavaliando a cobertura de riscos climáticos. A inação gera custos muito maiores do que os investimentos necessários para a adaptação", afirmou Artaxo. Para o pesquisador, produtores rurais e exportadores já enfrentam uma pressão dupla: de um lado, a quebra de safras provocada por secas e chuvas fora de época; de outro, exigências internacionais crescentes de rastreabilidade socioambiental, que podem barrar produtos ligados a áreas desmatadas.
O impacto financeiro não se restringe às porteiras das fazendas. Seguradoras e bancos que operam no agronegócio precisarão recalcular o custo do crédito e a abrangência das apólices diante de um histórico de sinistros que cresce a cada ciclo climático adverso. Secas como a de 2023 e enchentes como as do Rio Grande do Sul em 2024 já forçaram revisões emergenciais de contratos e renegociações de dívidas em escala nunca vista no setor.
Para monitorar o uso da terra e subsidiar essas decisões, o país dispõe do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e da rede MapBiomas, que rastreiam o histórico fundiário e identificam irregularidades na cadeia produtiva. Em Mato Grosso do Sul, onde o agronegócio responde por parcela significativa do PIB estadual, o cumprimento dessas ferramentas de rastreio é diretamente ligado ao acesso a mercados europeus e asiáticos cada vez mais exigentes.
Artaxo aponta que a transição energética deixou de ser apenas uma pauta de sustentabilidade para se tornar uma questão de competitividade. A geração solar e eólica já opera com custos inferiores aos da energia fóssil no Brasil, e o país tem condições de consolidar uma matriz elétrica barata — o que beneficia diretamente a indústria e o agronegócio, setores intensivos em energia. Mato Grosso do Sul, que avança em projetos de energia solar e biogás proveniente da cana-de-açúcar, está posicionado para se beneficiar dessa transição se mantiver os investimentos em curso.
O pesquisador também chama atenção para a necessidade de revisar o planejamento de infraestrutura em áreas litorâneas: com 8.500 km de costa, a elevação do nível do mar ameaça portos estratégicos para a balança comercial, como Santos (SP), por onde escoa grande parte da soja e do milho produzidos no Centro-Oeste. Para o mercado financeiro, ativos ligados ao petróleo e a atividades intensivas em carbono já começam a ser tratados como posições de risco, redirecionando capital para projetos sustentáveis — um sinal de que a precificação do clima chegou definitivamente às bolsas e aos fundos de investimento.
Fontes: UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS