O governo dos Estados Unidos cortou 35,9% da cota de açúcar brasileiro com tarifa reduzida para o próximo ciclo fiscal, que começa em outubro, retirando 55.993 toneladas da parcela destinada ao Brasil — de 155.993 t para 100 mil toneladas. O detalhe que chama atenção nos bastidores diplomáticos: o volume retirado não foi redistribuído a nenhum outro país exportador, e o vice-secretário de Agricultura americano deixou claro que o Brasil pode recuperá-lo, desde que apresente propostas comerciais consideradas satisfatórias por Washington.
A movimentação acontece em meio a um período de tensão crescente nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Para a representação brasileira em Washington, a coincidência entre o volume cortado e a quantidade ainda sem destino não é casual — é um recado. A cota tarifária funciona como uma janela de exportação com custo menor: dentro do limite, o açúcar brasileiro paga imposto reduzido ao entrar nos EUA; fora dele, a tributação sobe de forma acentuada, tornando o produto menos competitivo no mercado americano.
A adida agrícola da Embaixada brasileira em Washington, Ana Lucia de Paula Viana, relatou ao Ministério da Agricultura que o vice-secretário Stephen Vaden foi direto ao ponto: "O Brasil poderá recuperar o volume retirado de sua alocação caso apresente aos Estados Unidos propostas comerciais consideradas satisfatórias". O documento obtido pelo jornal O Globo indica que as 55.993 toneladas retiradas permanecem em compasso de espera até 1º de outubro, quando começa o novo ano fiscal americano. Se não houver entendimento até lá, o volume será redistribuído a outros países exportadores — e o Brasil perde a janela.
Antes dessa sinalização, a representação brasileira havia procurado o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) para questionar se o corte era definitivo, argumentando que o país havia utilizado integralmente a cota anterior, o que demonstra tanto capacidade de abastecimento quanto demanda real pelo açúcar brasileiro no mercado americano. O USTR afirmou não poder ir além das informações já divulgadas oficialmente, mas comprometeu-se a comunicar qualquer alteração futura.
Embora o comunicado americano não detalhe quais seriam as "propostas satisfatórias" esperadas de Brasília, o histórico das negociações aponta um caminho claro: o etanol. Há anos os Estados Unidos pressionam o Brasil para reduzir a tarifa sobre o biocombustível americano, que hoje enfrenta uma barreira tributária ao entrar no país. Em rodadas anteriores, o governo brasileiro indicou abertura para discutir o tema, mas sempre condicionada a uma contrapartida — justamente maior acesso do açúcar brasileiro ao mercado dos EUA. O impasse nunca foi superado.
Agora, Washington parece ter decidido mudar a estratégia: em vez de negociar simetricamente, usou a cota tarifária como alavanca. Há ainda uma segunda ameaça no horizonte: autoridades americanas avaliam aumentar as tarifas cobradas sobre o açúcar que entra fora da cota, argumentando que a barreira atual perdeu efeito ao longo dos anos. Se essa mudança avançar, exportar açúcar para os EUA ficará ainda mais caro para o Brasil, independentemente do volume negociado dentro da cota.
Mato Grosso do Sul é um dos estados com maior área plantada de cana-de-açúcar no Brasil, concentrada especialmente na região de Três Lagoas, Chapadão do Sul e Costa Rica. Usinas instaladas no estado exportam tanto açúcar quanto etanol, e qualquer restrição ao mercado americano afeta diretamente a precificação do produto na ponta da cadeia. Com a cota reduzida, o açúcar brasileiro que exceder o novo limite de 100 mil toneladas passa a competir em condições tarifárias desfavoráveis, pressionando margens de exportadores e produtores.
O prazo é curto. Com o início do novo ano fiscal americano em outubro, o Brasil tem poucas semanas para apresentar propostas que convençam Washington — ou assistir ao volume de 55.993 toneladas migrar para concorrentes como México, Austrália ou Guatemala. Para o setor sucroenergético brasileiro, o que parece uma disputa diplomática entre capitais é, na prática, uma questão de receita e competitividade para milhares de produtores espalhados pelo Centro-Oeste.
Fontes: MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, USTR, O GLOBO