O agronegócio brasileiro fechou o primeiro trimestre de 2026 em terreno negativo: o setor recuou 2% na comparação com o mesmo período do ano anterior e viu sua fatia no Produto Interno Bruto nacional encolher de 25,2% para 22,8%, segundo levantamento do Cepeia (Centro de Pesquisas de Economia do Agronegócio da USP) em parceria com a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). No total, o PIB do agronegócio foi estimado em R$ 3,05 trilhões entre janeiro e março deste ano.
O resultado surpreende pelo alcance: nenhum segmento escapou do recuo. Insumos, agroindústria, agrosserviços e, principalmente, o setor primário — que reúne a produção direta no campo — registraram queda no período. O fator central apontado pelos pesquisadores não foi a produtividade, que seguiu crescendo em diversas culturas, mas sim a trajetória dos preços das commodities, que desvalorizaram com força suficiente para anular os ganhos de volume colhidos pelas lavouras.
A aparente contradição entre colheitas volumosas e resultados financeiros negativos tem uma explicação clara: quando os preços caem mais rápido do que a produção cresce, a receita total do setor encolhe. Foi exatamente esse o cenário do primeiro trimestre de 2026, especialmente nas atividades agrícolas. Culturas como soja, milho e algodão, que respondem por fatia significativa do valor bruto da produção nacional, sentiram o impacto da desvalorização das cotações tanto no mercado interno quanto nas referências internacionais.
O segmento primário foi o mais penalizado, com recuo de 4,15% — o maior entre todos os elos da cadeia. A sequência de quedas seguiu pela cadeia de processamento e distribuição: insumos agropecuários, agrosserviços e agroindústria também apresentaram desempenho negativo, refletindo a pressão que começa no campo e se propaga até o processamento e o comércio de produtos agropecuários.
Para um estado onde o agronegócio é estrutural — Mato Grosso do Sul figura entre os maiores produtores nacionais de soja, milho, cana-de-açúcar, carne bovina e celulose —, a retração do setor no primeiro trimestre acende um sinal de atenção. A queda na participação do agronegócio no PIB nacional, de mais de 2 pontos percentuais, tende a se refletir em arrecadação estadual, investimentos em insumos e na renda das cadeias que dependem do campo.
O cenário também afeta o comércio nas cidades do interior sul-mato-grossense. Municípios como Dourados, Maracaju, Chapadão do Sul e São Gabriel do Oeste, onde a economia gira em torno da safra, costumam sentir com rapidez qualquer variação na receita dos produtores rurais — seja no consumo de bens duráveis, na contratação de serviços ou na negociação de insumos para o próximo ciclo produtivo.
O levantamento do Cepeia e da CNA considera os dados consolidados de janeiro a março, período que antecede o pico da comercialização de grãos da safra de verão. A expectativa do setor é de que a dinâmica de preços ao longo do restante de 2026 seja determinante para reverter — ou aprofundar — esse cenário. Se as cotações de soja e milho se recuperarem no mercado internacional, o segundo semestre pode trazer alívio às contas do agronegócio. Caso a pressão persista, a fatia do setor no PIB nacional pode terminar o ano ainda menor do que o registrado no primeiro trimestre.
O desempenho do agronegócio no primeiro trimestre de 2026 serve como termômetro de um desafio estrutural que o setor enfrenta: crescer em volume não é suficiente quando os preços não acompanham. Para estados como Mato Grosso do Sul, que apostam no agronegócio como motor de desenvolvimento, acompanhar essa equação de perto — e diversificar as cadeias produtivas — se torna cada vez mais estratégico.
Fontes: CEPEIA, CNA