Uma pequena lavoura de café presenteada a um neto, uma filha que assumiu o comando de uma chocolateria centenária e dois sócios que fundaram uma rede de moda com algodão como fio condutor — essas são algumas das histórias que revelam como o agronegócio brasileiro vai muito além das safras e das exportações: ele também é feito de afeto, memória e continuidade entre pais e filhos.
A agricultura familiar responde por parcela expressiva da produção de alimentos no Brasil, mas o que raramente aparece nos relatórios setoriais é o peso emocional por trás de cada colheita. No Dia dos Pais, essas histórias ganham contorno e mostram que o campo é também um espaço de transmissão de valores, técnica e identidade.
Em Cabo Verde, no interior de Minas Gerais, Roque Antônio Dias, produtor rural de 80 anos, começou sua vida profissional como comerciante num distrito chamado São Bartolomeu. Com o tempo, acumulou recursos suficientes para comprar terras e mergulhar de vez na cafeicultura. Sua filha, Ana Karolina Dias, cresceu literalmente dentro da lavoura — brincava entre os pés de café, perdia o chinelo no meio dos sulcos e participava das festas que marcavam o fim da colheita.
O capítulo mais recente dessa trajetória começou quando Roque presenteou o neto Murilo com uma parcela da plantação. Ana Karolina e o marido, Diego Amaral Feliu, decidiram então romper com o caminho tradicional de entregar a produção à cooperativa local e criaram a Olirum, marca de café natural artesanal. Todo o processo — do cultivo à secagem — é feito à mão; apenas a torra e a moagem são terceirizadas, em uma torrefação da região. Murilo, hoje, já circula pelo cafezal ao lado do avô e é o principal entusiasta da marca da família, garantindo que a tradição siga viva na quinta geração.
Carolina Neugebauer aprendeu a degustar amêndoas de cacau ainda criança, guiada pelo pai, Ernesto Neugebauer. Juntos, percorreram fazendas produtoras, estudaram espécies, ciclos de cultivo e sistemas sustentáveis — uma formação que moldou sua compreensão sobre o que os especialistas chamam de terroir nacional do chocolate fino.
A família Neugebauer fundou a primeira fábrica de chocolate do Brasil, e Carolina representa sua quinta geração à frente dos negócios — com uma diferença histórica: ela é a primeira mulher a assumir o comando, hoje como CEO da Danke Chocolates e do Grupo Noir. A trajetória une o rigor técnico herdado do pai à modernização da gestão, mostrando que tradições centenárias podem se reinventar sem perder a essência. Para o agronegócio brasileiro, que já figura entre os maiores produtores mundiais de cacau, histórias como essa reforçam o potencial do país na cadeia de chocolates de alta qualidade.
Em 1997, em Fortaleza (CE), Emilio Guerra fundou a Skyler ao lado do pai, Antonio Guerra. A marca nasceu com foco no vestuário masculino e cresceu até se tornar uma rede nacional de franquias, com dezenas de unidades físicas, e-commerce integrado e centenas de lançamentos por temporada.
O elo com o agronegócio está na matéria-prima: o algodão, fibra cultivada em larga escala no Brasil, é o coração da produção da Skyler. "O algodão é o tecido que mais está presente em histórias e memórias afetivas", afirmam os fundadores, que enxergam na fibra natural um símbolo de cuidado e proximidade entre gerações — das roupas da infância às camisetas da vida adulta. Para um estado como Mato Grosso do Sul, onde o cultivo de algodão avança em regiões como Chapadão do Sul e Costa Rica, a conexão entre a produção agrícola e marcas nacionais representa uma cadeia de valor que começa no campo sul-mato-grossense e termina nas prateleiras de todo o país.
O que une café, cacau e algodão nessas histórias não é apenas a agricultura: é a decisão de cada nova geração de olhar para o que o pai construiu e escolher continuar — com um passo a mais. Esse movimento é o que transforma um produto agrícola em legado, e um legado em negócio.
Fontes: NOTÍCIAS AGRÍCOLAS