O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmou, no segundo boletim do Painel El Niño 2026/2027, que o fenômeno climático deve se intensificar ao longo do segundo semestre deste ano, com potencial de atingir a categoria "muito forte" entre a primavera e o início do verão — uma combinação que preocupa produtores rurais do Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso do Sul, onde a estiagem é um dos riscos mais diretos associados ao evento.
O alerta não é apenas meteorológico. Especialistas em fisiologia vegetal e nutrição de plantas passaram a apontar uma janela de ação concreta para os produtores: investir no equilíbrio nutricional das lavouras antes que as condições climáticas se deteriorem. A lógica é simples, mas o impacto econômico pode ser significativo para quem antecipar o manejo.
Os efeitos do El Niño não se distribuem de forma uniforme pelo Brasil. Segundo nota técnica do Inmet, episódios do fenômeno historicamente reduzem as precipitações nas regiões Norte, Nordeste e em boa parte do Centro-Oeste e Sudeste, ampliando o risco de déficit hídrico durante o ciclo das culturas. Para Mato Grosso do Sul, onde soja, milho e pecuária respondem por parcela expressiva da economia, períodos prolongados de seca durante fases críticas do desenvolvimento das plantas podem comprometer safras inteiras.
Já o Sul do país enfrenta o problema oposto: excesso de chuvas, encharcamento do solo e maior incidência de doenças fungicas. O Inmet reforça que essa assimetria regional exige estratégias diferenciadas — o que funciona para um produtor gaúcho pode ser insuficiente ou inadequado para quem planta no Cerrado sul-mato-grossense.
Valter Casarin, agrônomo e coordenador-geral e científico da Nutrientes Para a Vida (NPV) — iniciativa da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) — defende que a adubação equilibrada é uma das ferramentas mais acessíveis para aumentar a resiliência das lavouras diante de extremos climáticos. "Embora não seja possível modificar os efeitos do El Niño ou evitar períodos de seca, calor intenso ou chuvas excessivas, é possível preparar melhor as plantas para enfrentar os mais diversos cenários climáticos", afirma o especialista.
Na prática, um manejo nutricional adequado favorece o desenvolvimento radicular, melhora a absorção de água disponível no solo, sustenta a fotossíntese em condições adversas e acelera a recuperação das plantas após eventos de estresse térmico ou hídrico. Casarin usa uma analogia direta: "Da mesma forma que uma pessoa bem alimentada suporta melhor uma doença ou uma onda de calor, uma planta equilibradamente nutrida desenvolve mecanismos naturais que aumentam sua capacidade de resistir".
Isolar a nutrição como único recurso, porém, seria um erro. Os especialistas são unânimes em recomendar que a adubação seja combinada com análise periódica de solo, monitoramento climático em tempo real e ferramentas de agricultura de precisão — tecnologias cada vez mais acessíveis ao produtor médio de Mato Grosso do Sul. Quando esses elementos funcionam de forma integrada, a lavoura reduz sua vulnerabilidade às oscilações do clima sem depender exclusivamente de condições meteorológicas favoráveis.
Para Casarin, a equação vai além da produtividade: trata-se de construir um sistema produtivo mais seguro e sustentável em um cenário em que eventos climáticos extremos tendem a se tornar cada vez mais frequentes. "A nutrição das plantas não substitui um clima favorável, mas amplia a capacidade das lavouras de responder quando ele deixa de colaborar", conclui o agrônomo. Com o El Niño ganhando força e a janela de plantio da safra 2026/2027 se aproximando, o momento de agir — segundo os especialistas — é agora.
Fontes: INMET, NUTRIENTES PARA A VIDA (NPV), ANDA